“La Dolce Vita” e a garota do restaurante.


Se tem um filme do Fellini que eu colocaria entre os mais importantes da minha vida, este é A Doce Vida (La Dolce Vita). Explica a colossal bagunça dos valores do último século através da vida de Marcelo (Marcello Mastroianni), repórter de um jornal sensacionalista que se dedica à caça de celebridades, futilidades. Seu companheiro é Paparazzo (sim, o personagem que deu nome a esta classe de fotógrafos), e Roma seu ganha-pão e parque de diversões. Marcelo vive dividido entre uma carreira rentável e garantida, e suas aspirações literárias. Divide suas atenções entre três mulheres: uma rica e mal-acostumada socialite que parece entendê-lo, a noiva certinha e desesperada, e por fim Sylvia, atriz, arquétipo da mulher-símbolo, selvagem, sexualmente inclusive. É de Sylvia uma das cenas mais marcantes do filme: na madrugada pelas ruas desertas de Roma, Marcelo cortejando Sylvia, encontram um filhote de gato abandonado e Sylvia pede à Marcelo um pouco de leite (de madrugada?) para ele. Marcelo sai para procurar o tal leite e quando retorna, encontra Sylvia DENTRO da Fontana de Trevi, chamando-o. Entenda: o sujeito (um cara boa-pinta, um monte de mulheres à seus pés) sai em plena madrugada para procurar leite para um gatinho abandonado, apenas para agradar a mulher pela qual está apaixonado. Desajeitado, Marcelo vai procurar Sylvia dentro da fonte… esta cena também é belíssima, e histórica (e a tal Fontana de Trevi nunca mais teve sossego, depois do filme – todo mundo quer viver esta cena na vida real).

Mas não é esta cena (por sinal muito bonita) ou por conta da importância de A Doce Vida, que lembro do filme. Outra cena me inquieta. Quando Marcelo resolve escrever em um restaurante à beira-mar, é servido pela filha do dono – garota do interior da Itália, simples, direta. Ela se interessa pelo estranho trabalho de Marcelo, e há um curto diálogo entre eles. O otimismo ingênuo, a curiosidade benevolente dela se contrapõe ao caos que forma a realidade dele. Corte. O filme segue adiante e, próximo do final, Marcelo e seu grupo de amigos (excêntricos, ricos enfastiados, alternativos, pretendentes a celebridade) acabam em uma festa à beira-mar particularmente “quente”, longa e – para Marcelo – entediante, uma festa onde ele explode em sarcasmo, ironia, desilusão. Na manhã seguinte, todos saem à praia, atraídos pela notícia de que os pescadores haviam tirado do mar um peixe disforme, e amontoam-se em volta da rede com a tal criatura. Enquanto os convidados se amontoam para ver o monstro, Marcelo vê ao longe a garota do restaurante, e ela o reconhece. Acena para ele, grita, e ele responde, sem ouví-la, incapaz disso. Não é à toa: além da distância física entre eles, há um abismo enorme entre o mundo que foi (o dela) e o que é e será (o dele); entre este mundo visto por fora (ela) e este mesmo mundo visto em suas entranhas (ele).

Ela vem de fora deste circuito; parece uma saída vinda dos céus (e tem mesmo um quê de anjo), mas é de alguma maneira inacessível a Marcelo, vindo da “doce vida” interminável de Roma. Sem conseguir se comunicar, e ciente deste abismo, não resta a ele nada além de despedir-se, com um sorriso. Falando assim parece algo rude, cruel, corrosivo, e é mesmo. Mas é um Fellini, e ele filma este dilema de uma forma brilhante, poética, humana até os ossos. Mostra este lado “menos bonito”, mas nos lembra o tempo todo de que estamos falando de gente, de pessoas de verdade.

Porque escrever sobre o filme, este filme, aqui, afinal? Porque me dei conta, estes dias, de que em um aspecto ao menos me tornei Marcelo (o personagem) demais. Além do que eu queria, pretendia, deveria. É saudade de alguma inocência, ingenuidade; mas é também uma constatação simples assim, de um cara que caminha pra metade da vida e percebe que perdeu aquela capacidade de perceber as pessoas, de olhá-las sem tanta reserva, sem olhá-las (as pessoas do hoje) pelo filtro do passado (dos erros, fracassos, cicatrizes, etc). Suprema ironia, descobri isso em um restaurante, por conta justamente do olhar insistente de uma garotinha bem bonita, atrás de um balcão. Eu podia (e tentei) todas as explicações possíveis: foi algum engano, ela me olha só para passar o tempo, me olha por curiosidade, qualquer desculpa. A verdade, a que me incomoda, é que esses anos todos levaram consigo aquela empatia imediata, o olhar sem muros, reservas, dissimulações, sem tanta cautela. Levaram de mim o mesmo olhar que a garota do restaurante me deu.

2 thoughts on ““La Dolce Vita” e a garota do restaurante.

  1. Rita

    Bonito Ricky, meio triste tambem. Eu estive na Fonina di Trevi, mas nao sabia dessa cena nao…so sabia que era um lugar procurado por casais, romantico.

  2. riquati Post author

    Oi Rita!! Legal que vc. gostou… tá com um ar meio triste pq. é algo que me pegou de surpresa, eu não tinha percebido que estava assim antes. Vivi os últimos 3 ou 4 anos com uma ausência. Neste último ano, quando esta ausência ganhou nome, comecei a perceber um monte de mudanças que ocorreram neste meio tempo. E me assustei… aí sentí que precisava escrever, registrar. Acho que é isso. Mas não tou triste não, só surpreso.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*