Os óculos, os riscos e as histórias pra contar.

Outro dia, passeando em um shopping próximo ao trabalho, esperando a hora de voltar do almoço, entrei por curiosidade em uma loja de óculos esportivos. Descolados, bonitos, centenas de modelos, e com uma vendedora que desmonta a loja e te faz experimentar todos os que você gostou, enfim… foi difícil sair dalí de mãos abanando, mas eu saí assim, e com o bolso intacto. O que me fez desistir foi lembrar de meus óculos de sol, um RayBan  escuro comprado (estes sim) em um momento de loucura, há dez anos. Pra descrever estes óculos, as pessoas variam entre óculos de ceguinho (“agora falta só o Labrador, Ricardo!”) a óculos de tarado (“se eu te vejo na rua com ele, mudo de calçada!”). Eu gosto demais deste RayBan, e sei que o modelo sequer é fabricado atualmente (Celebrities Caribe).

Mas o que torna estes óculos realmente especiais, para mim, é que eles têm histórias pra contar. Eles andaram comigo por dezenas de milhares de quilômetros; eles estavam comigo em momentos muito bons, com gente que eu amo, amigos, família, e uma garota que nunca mais ví. Participaram de sorrisos e esconderam lágrimas. Eles me ajudaram a enxergar em meio a confusão do trânsito da cidade, seguraram a onda na estrada, aguentaram sol, calor, chuva. Caíram no chão do carro, foram largados de mal jeito no porta-luvas, ganharam pequenos riscos, marcas. As marcas não impedem o uso (são leves), mas elas estão lá, pra sempre.

Algumas pessoas são assim também; elas se tornam especiais não só pelas histórias que viveram, pelas marcas que ganharam, mas pelo que fizeram disto. Viver marca. Só não vai ter os risquinhos na lente quem ficar no estojo, se protegendo; mas de que adiantaria um RayBan novo hoje, se ele não tivesse participado de todos estes momentos? Não podemos ver os risquinhos, as marcas que viver deixou nestas pessoas, quando conhecemos apenas a história delas. Ouvimos muito o que foi vivido, pouco o que foi experimentado. Perceber os tais risquinhos exige afeto, atenção, paciência. Vale a pena? Vale. Pessoas com risquinhos são mais interessantes; preocupam-se mais com as outras, amam de um jeito diferente. Tem menos certezas, mas estas certezas são grandes e essenciais; tem menos ilusões talvez, mas respeitam mais os sonhos. Amo imensamente a ambos, pessoas com risquinhos e meu Rayban velho.

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