O filme, o cantor, a música (e a vontade de ser um piano)

O filme: A última sessão de cinema (The Last Picture Show), grande estréia do diretor Peter Bogdanovich no cinema. Um filme produzido em um grande estúdio americano, mas completamente fora dos padrões do ‘filmão’: falava sim do ‘american way of life’, mas visto do lado B – o dos moradores de uma cidadezinha perdida no interior do Texas, plena década de 50: guerra do outro lado do mundo (Coréia), declínio do cinema e ascensão da televisão como principal entretenimento (e formação/reprodução de padrões), o milagre americano acontecendo lá fora e em Anarene, apenas a poeira com que um vento onipresente insiste em cobrir a vida de seus habitantes.


Mais: o filme é, apropriadamente, filmado em preto e branco. Mas não um preto-e-branco qualquer, um preto-e-branco evocativo, granulado, afiado; em 1971, pouca gente arriscaria fugir do conforto das cores. Peter Bogdanovich era um destes, e o diretor de fotografia Robert Surtees realizou uma obra-prima, ambientando um passado (na época) não tão distante com a dose certa de luz que a memória impõe.

Baseado em um livro de Larry McMurtry (Streets of Laredo), o filme é a estréia na tela grande de um trio de atores na faixa dos seus 20 anos: Cybill Shepherd, belíssima, como a garota mais rica, bonita e fútil da cidade; Jeff Bridges, seu namorado pobre e boa-pinta, sempre em vias de ser trocado/traído/usado, e Thimoty Bottoms, seu amigo inseparável, o garoto meio perdido entre os sonhos e a realidade.

Juntam-se a eles Cloris Loachman e Ellen Burstyn, respectivamente a dona de casa que se envolve com Bottoms, e a mãe de Cybill (ambas interpretações fabulosas); e Ben Johnson, ator veterano de westerns, que faz o grande Sam, o Leão: espécie de ‘pai’ moral da cidade, dono do cineminha local (prestes a fechar, daí o título do filme), da sinuca e do boteco, ele faz exatamente este papel para os dois garotos. É em torno da figura forte de Sam que ambos balizam valores, comportamento, caráter.

O filme é um pedaço da vida dos dois, suas perspectivas, escolhas, aprendizados. Coming of age na america caipira dos anos dourados – em Anarene, no máximo um brilho barato.


Até aqui eu falei do filme e ele vale MUITO a pena ser visto. Quem viu, normalmente o descreve como um filme agridoce – você termina de ver e não sabe se está realmente mais triste ou mais feliz; mas dificilmente sairá do mesmo jeito, se prestar atenção nele. Mas um dos pontos fortes do filme é a trilha sonora, recheada de canções da época, especialmente de Hank Williams – patrono do country americano, e primeira grande estrela do country no radio. Ascendeu, ardeu ao máximo e apagou em tempo recorde.

O cantor: Hank Williams, nasceu em 1923 e aprendeu a tocar com um músico de rua negro e blueseiro, trocando as lições por um prato de comida. Hank foi o primeiro grande fenômeno do rádio Country, e deixou um legado de canções que foram (e são) regravadas de tempos em tempos por artistas dos mais variados estilos – rock, blues, country, pop. Hank não sabia ler partituras, mas compunha e escrevia canções tão diretas e imediatas que mexiam com o sentimento de uma America saída da guerra, apegada a um passado rural recente, irremediavelmente caipira e saudosa de uma inocência também ha pouco perdida.

Você vê a letra de uma música e estão lá homens e mulheres se comunicando e se relacionando de um jeito totalmente diferente da sofisticação esnobe das grandes metrópoles que o ‘cinemão’ prescrevia: aqui, amores e desejos & promessas e seus resultados são crús, básicos, vitais. A vida é dura e não há muito tempo para ter dúvidas ou dissimular, se jogar à estratégias.

Assim são suas músicas, de uma simplicidade tocante; e delas, calhou de eu conhecer primeiro Cold, Cold Heart, que ‘abre’ o filme acima. Em tempo: Hank Williams viveu como cantou: emplacou inúmeras músicas nos primeiros lugares do rádio, foi sua primeira celebridade country de alcance nacional, brilhou como a estrela que era e se consumiu em álcool (muito), confusões e morfina (Hank convivia com dores incuráveis), apagando-se aos 29 anos. Virou lenda.

A música: Cold, Cold Heart é o lamento de um pretendente rejeitado, alguém que está ‘pagando por erros que ele não cometeu’. Alguém no passado desta mulher desejada, um outro amante, a machucou o suficiente para que ela rejeitasse qualquer envolvimento a partir de então. Ele tenta de toda forma derreter este coração frio e assustado – ‘why can’t i free your doubtful mind and melt your cold, cold heart?‘. Qualquer um que tenha vivido a situação (e insistido, e pedido, e argumentado, e tentado provar que sim, se é diferente) vai se identificar com ele – sua angústia em provar que merece uma chance, e que ela também.

É algo que poderia virar uma música muito ruim nas mãos erradas, mas Hank tira dele uma SENHORA música – eu mesmo que não curto quase nada ligado ao country gosto – e lembro o quanto estive tomado por este sentimento – quem nunca investiu em um amor complicado, que atire a primeira pedra.

A Norah, Norah Jones. Esse docinho de coco que canta, instiga, relaxa e ainda me faz ter vontade de ser um piano, sai com esta versão belíssima de Cold, Cold Heart. Eu já gostava da moça, do repertório e da tal ‘presença’ dela; já era ligeiramente fã antes. Algum tempo atrás, tou procurando por Cold, Cold Heart no YouTube quando esbarro neste clipe: seria pedir demais querer indiferença deste meu coração de gelo, não? 😉

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