Para uma senhora, desconhecida, perdida em uma janela.

Sei que ela sempre fica sentada lá no fundo da churrascaria, quietinha – uma única vez a ví entrando na cozinha, e logo voltou para a última mesa, perto do escritório. Tem bastante idade, e parece ter sido bonita, em sua época: eu a vejo olhando a rua pela vidraça enorme, e imagino o que ela pensa, do que ela se lembra; certamente não é daquela rua, mas alguma rua, outra rua, milhares de quilômetros daqui, quem sabe?. Mesmo quando a minha mesa barulhenta, cheia de comemorações & palmas & risadas preenche o espaço do salão, ela permanece imutável: um meio-sorriso, ou só o olhar perdido para a janela imensa, esperando o tempo passar, esperando a volta para casa.

Dá vontade de pedir aos meus: não a perturbem muito, não a aborreçam muito: deixem-na sonhar um pouco por aquela janela. E aos dela: alguém que a entenda, e lhe seja familiar e importante, vá até lá, e aproveite a oportunidade para lhe fazer um agrado, para falar com ela, lhe dar um abraço. Cinco minutinhos que sejam, mas vá. Alguém que a traga para o presente, de tempos em tempos, para que ela não se perca. É isso.

One Response to “Para uma senhora, desconhecida, perdida em uma janela.”

  1. Sarah says:

    Talvez as palmas, as risadas, as comemorações da mesa…me impediram de reparar a inquieta cena que descreveste. Prometo que da próxima vez, vou procurá-la. 😉

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