não-ficção

…mas havia algo com que ele não contava: outra vez aquela voz insistente, que vinha de dentro e zombava das suas dúvidas (algumas realmente risíveis) e avanços incertos, mas lhe era franca: ‘Ricardo, a felicidade não espera – é escolha, arriscar vivê-la ou suportar sua ausência até alguma próxima volta da vida’. Havia o quê, anos? desde que a tal voz se calara; neste meio tempo, tinha se virado como podia, sem esta ajuda. Até a noite de ontem, para ser mais exato: não conseguira ser indiferente a ela. Outra vez neste encanto.

Parte dele ainda colocava as coisas em perspectiva: datas, frases, instantâneos, aquele determinado olhar dela; a outra parte, que ele já sabia perdida nesta idéia, o inquietava. Coração não é bicho simplório, tinha aprendido: e o dele além disso era também fácil em misturar afetos, quereres, carinhos, admiração. Nunca fora simples como parece ser para os outros, como estender a mão. A idéia, porém, de algo assim, que nascesse e terminasse nele e em silêncio, era ainda pior que qualquer confusão em que o coração lhe colocasse.

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