Ítalo Calvino / Cidades Invisíveis

“O inferno dos vivos, se existe, não é o que foi nem o que será; é aquele que formamos vivendo juntos. Há duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil: é você adaptar-se ao inferno até ao ponto de não mais percebê-lo; a segunda é árdua e exige atenção e cuidado contínuos – e nela reside a sabedoria – que é no meio do inferno você descobrir quem e o que não é inferno e preservá-lo e abrir caminho e ir adiante.”

O trecho acima é o último parágrafo do livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. Livro rápido, mas denso, Cidades Invisíveis é uma reflexão sobre a vida em sociedade, a cidade não só como símbolo desta interação e estranhamento, mas das ilusões e contradições da vida possível nelas. Na narrativa do viajante Marco Polo, contando ao conquistador Kublai Kahn sobre cada cidade de seu império que encontra em suas andanças, vão desfilando aspectos e nuances do viver urbano, de forma profunda e concisa.

Cada cidade que Marco Polo relata recebe um nome de mulher, talvez pela significação da cidade como ponto de partida da vida social, cidade-mãe, ou talvez cidade-mulher, cidade-desejo. Calvino disse certa vez que não precisaria escrever mais nada, pois tudo que ele tinha para dizer, havia dito neste livro. Depois de ler e reler muitas, muitas vezes as Cidades, não duvido; Calvino tem obra vasta e muito interessante, lí boa parte dela, mas Cidades realmente é o livro em que tudo foi dito.

Uma das cidades é exemplo completo da tese acima: Berenice, sucessão em sí mesma de cidades justas e injustas, e seu alerta: “… entre as sementes da cidade dos justos, esconde-se também uma semente maligna: a certeza e orgulho de estar certo –e de ser mais justo do que tantos outros que se acreditam mais justos do que os justos. Essa semente fermenta amargura, rivalidade, ressentimento”. São poucas páginas, é verdade, mas todas dizem muito; não há espaço para supérfluos ou futilidades nas Cidades de Calvino.

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