Merceditas

Quem ouve Merceditas, chamamé de Ramón Sixto Rios regravado por dezenas de artistas latino-americanos, não pode imaginar que a história do amor alí contado é real, e a Merceditas do título vivia até alguns anos atrás.

Ramón Sixto Rios, chamamecero de então 27 anos, participava de uma apresentação em Humboldt (pequena cidade da província de Santa Fé, Argentina) em um dia de 1939; Ramón era então um artista conhecido e respeitado. Em meio à festa, entre uma música e outra, Ramón se encanta com uma garota loira, neta de suecos e alemães, Mercedes Strickler Khalov, então com 24 anos. Merceditas, como as amigas a chamavam. Mercedes e Ramón dançam, conversam, se entendem; o sentimento que nascia alí naquela noite atravessaria décadas, e renderia ao chamamé uma de suas obras mais marcantes.

Ramón manteve nos próximos meses intensa correspondência com Mercedes; a lembrança apertando-o, toma a decisão: sobe em um ônibus, e volta à Humboldt para se declarar à Mercedes e pedi-la em casamento, alianças junto. Para sua surpresa, Mercedes, apegada à sua terra natal e à vida que levava em sua fazenda, não aceita a proposta; Ramón, desiludido, volta à vida de músico. Seis meses depois compõe Merceditas, que se torna nacionalmente conhecida pelo rádio, com sua melodia simples e a história quase universal (que atire a primeira pedra quem puder dizer um “eu não” sincero) do amor não-correspondido, doído, chorado. Aqui, porém, o caso era real (e talvez o que a torne tão diferente das outras).

Consta que Mercedes estava na copa de sua casa, quando ouviu pelo rádio a canção e reconheceu nela, além da voz de Ramón, várias frases ditas pessoalmente a ela quando ambos se conheceram, naquela festa. Mercedes, descrita como uma mulher belíssima e de hábitos pouco comuns para a época – como usar roupas de couro e dirigir uma moto, por exemplo – entende para quem eram aqueles versos; ainda assim, permanece na rotina de sua fazenda, entre flores, cães e muitos gatos. Prefere continuar assim. Já Ramón, algum tempo depois, casa-se, e – ironia – fica viúvo dois anos depois. Volta a propor casamento a Mercedes, e novamente, ouve um não. Merceditas continuava, então, como sua música de maior sucesso.

Quarenta (isso, quarenta!) anos depois disso tudo, Mercedes Strickler é procurada pela reportagem de uma revista portenha para contar sua história. Um exemplar contendo a entrevista chega às mãos de Ramón Sixto Rios, que a convida a visitá-lo em Buenos Aires. O reencontro acontece, e algum tempo depois, Ramón falece. Neste meio tempo, retornam as correspondências, uma carta por dia. Mercedes, sua musa, continuaria vivendo em sua fazenda por muito tempo ainda, sempre só e enfrentando grandes dificuldades financeiras, até falecer, em 2001 e aos 84 anos, em um hospital de Santa Fé. Poucos dias antes, Mercedes teria dito: “ninguém neste mundo me amou tanto quanto ele”.

Bom, aí está a história… impossível ouvir Merceditas depois do mesmo jeito.

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