Chão de estrelas

De Orestes Barbosa e Silvio Caldas, Chão de Estrelas tem alguns dos versos mais lindos que eu já lí. Primeiro, é bom que se diga, a música tem seus 75 anos – é uma senhora respeitável, nascida em 1935 e com os contornos do português da época. Segundo, eu a descobri bem tarde: em 1956, Manuel Bandeira já dizia que, se fizessem um concurso para a escolha do verso mais bonito do mundo escrito em nossa língua, ele votava no “…Tú pisavas nos astros, distraída…”. Eu acompanho  o voto ilustre e acrescentaria ainda que, cada vez que leio/ouço o bendito verso, me dá um travo aqui na garganta. De beleza mesmo,  de susto. Que beleza demais, sem aviso (“olha, tá vindo um verso daqueles”) dá susto. 🙂

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão”.


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