Archive for November, 2010

porque loucura pouca é bobagem:

Wednesday, November 24th, 2010

isto FOI um caminho utilizado para manutenção/inspeção em uma usina hidrelétrica espanhola construída em 1905, há um bom tempo abandonado… alguns malucos descobriram e resolveram usar para outros fins (bem menos utilitários e mais emocionantes). “El Caminito del Rey”, em Málaga, ganhou o nome após a visita do rei Alfonso XIII em 1921 – sim, o rei fez o percurso… mas na época em que ainda havia onde pisar! 🙂 Hoje está interditado, e o governo espanhol tem planos de restaurá-lo para fins turísticos. Queria conhecer, mas depois da restauração… 😉

Para uma senhora, desconhecida, perdida em uma janela.

Friday, November 19th, 2010

Sei que ela sempre fica sentada lá no fundo da churrascaria, quietinha – uma única vez a ví entrando na cozinha, e logo voltou para a última mesa, perto do escritório. Tem bastante idade, e parece ter sido bonita, em sua época: eu a vejo olhando a rua pela vidraça enorme, e imagino o que ela pensa, do que ela se lembra; certamente não é daquela rua, mas alguma rua, outra rua, milhares de quilômetros daqui, quem sabe?. Mesmo quando a minha mesa barulhenta, cheia de comemorações & palmas & risadas preenche o espaço do salão, ela permanece imutável: um meio-sorriso, ou só o olhar perdido para a janela imensa, esperando o tempo passar, esperando a volta para casa.

Dá vontade de pedir aos meus: não a perturbem muito, não a aborreçam muito: deixem-na sonhar um pouco por aquela janela. E aos dela: alguém que a entenda, e lhe seja familiar e importante, vá até lá, e aproveite a oportunidade para lhe fazer um agrado, para falar com ela, lhe dar um abraço. Cinco minutinhos que sejam, mas vá. Alguém que a traga para o presente, de tempos em tempos, para que ela não se perca. É isso.

Definição

Wednesday, November 10th, 2010

Viver é equilibrar urgências, possibilidades, expectativas:

a infinita corda-bamba ligando as impossibilidades e as realizações, acima do vale do tempo.

tudo quanto eu posso querer dizer

Tuesday, November 9th, 2010

Eu hoje acordei pensando em algumas pessoas – gente que esbarrou em minha vida em algum ponto dela, que apareceu e foi embora, que não foi ou desviou. Acho que acordei pensando nelas para evitar pensar em uma só, um caminho que só tem duas saídas e nenhuma volta. Ser só (não estar só, que estar é algo temporário, é o dos outros e não meu caso) parece quase uma ruindade (aí sim, pra sí e para os outros); fiquei matutando a idéia e me apareceram aqui a srta L., rocker, um bebezinho risonho em um vestido preto curto em uma noite de festa, pura nonchalance – aquela postura desligada diante da vida que me atraía e atrai; na srta. F. nos seus dezessete anos, toda urgência & sei que aqui, imediatamente, quis aquele brilho dos olhos dela como nunca tinha imaginado antes, minha estréia em desespero por causa de mulher. Srta. M, que tinha as tais covinhas no rosto delicado, para quem, na ausência de cadeiras na sala (na sede temporária da empresa), eu me abaixava para olhá-la mais de perto, e era quando eu falava como quem fala à uma criança, de um jeito doce. Srta M. jamais me entendeu; mas eu a pressentia em todo e qualquer lugar, algo assombroso.

Pensei também na Sra R., que me deixava exausto com a montanha-russa emocional que era sua vida, e eu quis tanto – mas tanto – que até a amizade resistiu ao não. Quando o não pode virar sim, ou quis virar sim, eu já não podia, honestamente, vivê-lo. Cada um a seu momento, saímos de cena. Lembrei de ter passado um tempo imenso, desacreditado. Lembrei da menina bonita que esperou o estágio acabar para me ligar, sem jeito mas cheia de coragem, me chamando para sair; de outra colega que teve comigo uma paciência (e uma decência, em não tripudiar) além da conta, até que só bem recentemente eu pudesse olhá-la com o mesmo (ou ainda maior) carinho, mas sem automaticamente imaginar algum futuro juntos. E quanto mais eu evitava a idéia, pensando nelas todas, em meus tropeços e acertos, mais eu me via hoje – e ontem, e nos últimos dias, a meio passo de recomeçar a busca, tateando o caminho. Até aqui, é tudo quanto eu posso querer dizer.

não-ficção

Friday, November 5th, 2010

…mas havia algo com que ele não contava: outra vez aquela voz insistente, que vinha de dentro e zombava das suas dúvidas (algumas realmente risíveis) e avanços incertos, mas lhe era franca: ‘Ricardo, a felicidade não espera – é escolha, arriscar vivê-la ou suportar sua ausência até alguma próxima volta da vida’. Havia o quê, anos? desde que a tal voz se calara; neste meio tempo, tinha se virado como podia, sem esta ajuda. Até a noite de ontem, para ser mais exato: não conseguira ser indiferente a ela. Outra vez neste encanto.

Parte dele ainda colocava as coisas em perspectiva: datas, frases, instantâneos, aquele determinado olhar dela; a outra parte, que ele já sabia perdida nesta idéia, o inquietava. Coração não é bicho simplório, tinha aprendido: e o dele além disso era também fácil em misturar afetos, quereres, carinhos, admiração. Nunca fora simples como parece ser para os outros, como estender a mão. A idéia, porém, de algo assim, que nascesse e terminasse nele e em silêncio, era ainda pior que qualquer confusão em que o coração lhe colocasse.

Alegria, Alegria

Wednesday, November 3rd, 2010

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou…

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não…

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou…

Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…

Alegria, Alegria (Caetano Veloso) tem um gosto todo especial, para mim (seja pela letra mesmo, seja pelo contexto em que eu ouvi nas primeiras vezes). E é paixão antiga, do Ricardinho de 1980 e qualquer coisa… tem jeito e cara de verão, leve, sol na janela no final da tarde, risada, picolé de limão e quase-férias. Fica assim uma felicidade boba, declaradamente descompromissada, que combina com o título… 🙂