Archive for December, 2009

“Closer – perto demais” – antes tarde…

Sunday, December 20th, 2009
Natalie Portman, a Alice de Closer

Natalie Portman, a Alice de Closer

Assisti, com alguns anos de atraso, Closer – perto demais. O motivo do atraso é risível: preconceito. Jamais achei que um filme com a Julia Roberts pudesse ser sério ou, pior ainda, ela desse conta de um papel mais denso. Caí do cavalo, feio… a água com açúcar passou longe de Closer. O filme é rico, tanto nas atuações como, especialmente, nos diálogos (brilhantes). É um filme enxuto: quatro personagens, alguns cenários (simples), muito diálogo. Daria fácil uma peça de teatro, e não procurei saber, mas não duvido que seja esta a origem dele.

A história começa de forma relativamente simples: uma garota meio maluquinha, ex-stripper nos EUA e recém-chegada a Londres (Alice, interpretada por Natalie Portman) é atropelada por um motorista de táxi, e socorrida pelo jornalista e escritor em início de carreira Daniel (Jude Law); eles iniciam um romance, e Daniel aproveita a história de Alice como argumento para seu primeiro livro. Prestes a ser publicado, Daniel conhece a fotógrafa  Anna (Julia Roberts), recém-divorciada, durante uma sessão de fotos. Anna é uma mulher madura, de visão prática e sem muitas ilusões; ela a princípio evita envolver-se com Daniel, contrariando a atração que surge entre ambos. Daniel, rejeitado por Anna, mantém o relacionamento (já algo desgastado) com Alice, mas não consegue deixar de procurar/observar Anna. Ela torna-se uma espécie de obssessão para ele, que a espreita pela janela, na rua, segue seus passos; Anna encarna neste momento a aventura da conquista. Neste misto de desejo e impossibilidade, ele resolve brincar com o destino, fazendo-se passar por ela em um chat erótico, e promovendo o encontro dela com o médico Ben (Clive Owen). Neste encontro, ao invés de pregar uma peça em Anna, como era sua intenção, ele a apresenta ao seu futuro marido. O tiro sai pela culatra e Ben, sujeito sem muito refinamento, mas prático e objetivo como Anna, acaba por levá-la ao altar. Ele a ama, mas de uma forma previsível, comum, quase contratual. Ambos obtém a estabilidade almejada, mas não a realização do ideal romântico: sua relação é mais de posse mútua, compromisso, do que a experiência de uma verdadeira aventura amorosa. Anna ressente-se disso e, com o tempo, cede à esta ilusão, agora representada por Daniel – o amante, fogoso, interessado, apaixonado, diferente. Ben, o marido, contenta-se com uma escapada ocasional (e confessada), de forma que, em sua visão, não há nada errado em seu casamento.

Quando a situação foge ao controle dos amantes, eles resolvem abrir mão de seus relacionamentos atuais, e viver este ‘novo’ amor. Anna tenta separar-se de Ben (que entra em uma espécie de colapso emocional, ao perder o ‘chão’ do casamento) e Daniel abre o jogo com Alice, talvez o personagem mais interessante (e mais sofrido, também) dos quatro. Alice vai-se da vida de Daniel (embora ele tente mantê-la, retê-la) e volta à rotina de stripper em um clube, enquanto o (novo) casal apaixonado tenta conseguir os papéis da separação dela. Daniel, porém, não consegue confiar totalmente em ninguém (sua busca incessante pela verdade dos outros é proporcional à velocidade com que oculta a sua) e, em uma recaída de Anna (que transa com o ex-marido em troca da assinatura deste nos papéis do divórcio), perguntas demais exigindo respostas honestas demais irão destruir a ilusão que Anna ainda possui do seu ex-amante e pretendente a marido. Daniel busca na verdade alheia o escudo para sua mentira, sua incapacidade de se envolver/entregar por inteiro, sua necessidade de manipular emocionalmente as pessoas. Neste meio tempo, Ben encontra Alice, casualmente, no trabalho dela. Esta é uma das cenas mais brutais (e paradoxalmente, também mais bonitas) do filme. O genial diálogo dos dois, na cabine de strip-tease, cresce de forma ferina, em que o controle do jogo se alterna, pergunta a pergunta, resposta a resposta. Ele quer a todo custo a verdade (novamente) dela, mas não percebe quando a obtém. Quando seus recursos (verbais, financeiros, emocionais) se esgotam, depois de ter sido ríspido, arrogante, Ben finalmente entende sua situação. É a hora em que, orgulho deixado de lado e lágrimas chegando, vem a declaração mais surpreendente possível. “Eu te amo. Eu amo em você tudo aquilo que dói.” – ou seja, a fragilidade dela (estrangeira, stripper, jovem, abandonada, solitária – toda sua situação). É, de alguma forma, um momento em que Ben permite-se admitir a própria fragilidade também, o fundo-do-poço em que se encontra pela perda do amor de Anna.

O filme dá um pequeno salto temporal e vemos Daniel, começando a entender que o amor (e confiança) de Anna está escorregando por entre seus dedos. Desesperado, parte para o consultório de Ben, pedindo que ele a abandone, acusando-o de não a perdoar (o que ele refuta) e de amá-la sem entusiasmo, ‘como um cão a seu dono’. Ben, confortável no controle da situação (e novamente com Anna, à sua maneira), pergunta a Daniel se ele sabe o que significa ‘compromisso’; e diz que ela já fez a sua escolha (o que é verdadeiro; uma escolha pela estabilidade). Ben diz a Daniel que encontrou Alice e escreve em um receituário o endereço do inferninho onde ela trabalha (adicionando, antes que Daniel pergunte: “Não, eu não transei com ela”). Quando Daniel dirige-se à porta, chorando e agradecendo a informação, Ben o interrompe: “Dan… não consigo ser assim tão nobre contigo. Na verdade, transei com Alice. Sinto muito”. É a declaração que selará o destino de Daniel, cedo ou tarde. Sabemos (mesmo sem ter visto o final do filme) que, em algum momento, a compulsão de Daniel em ‘saber tudo’, o trairá. Ben segue sua vida, após obter (de modo não muito ético, mas a seu ver válido) Anna como sua esposa novamente, sem se preocupar muito com a satisfação dela. Para ele, Anna é muito importante em sua vida, mas como uma base emocional, não como uma companheira. Ele a vê como uma depressiva que precisa constantemente de situações assim (o relacionamento onde estão) para afirmar sua visão de mundo, e não se importa com isso, desde que a tenha por perto. Prático, objetivo, egoísta e, assim como Daniel, manipulativo.

Daniel e Alice retornam às boas, e, em novo salto temporal, acompanhamos o dia anterior ao embarque dos dois, em férias, aos EUA. Entre recordações de como se conheceram, bons momentos, Daniel (previsivelmente) esbarra neste assunto, a noite em que Ben encontra Alice no trabalho. E a pergunta vem, para desconforto dela; e insistente, querendo a tal verdade absoluta, os fatos, o ocorrido… até que vemos o semblante de Alice mudar. É como se a câmera capturasse o exato momento em que ela se dá conta de quem Daniel é, de sua fraqueza, sua torpeza. É tão claro, que podemos ler isso nos olhos dela… Daniel sai para comprar cigarros e retorna, no meio do caminho, pedindo desculpas… finalmente, entende a frase de Ben (“não consigo ser assim tão nobre contigo”). Já não há o que remendar, e após ouvir a verdade, em uma discussão que termina em briga, vemos Alice indo embora sozinha para os EUA. A câmera retorna para a cama de Ben e Anna, ele fechando o livro que está lendo, ela olhando perdida para o lado – nenhuma emoção, nenhum envolvimento, apenas a convivência (e conveniência). Anna fez sua escolha pela segurança, pelo conhecido, pelo previsível. Incrível como Julia consegue transmitir isso, este sentimento (a vida prosseguirá sempre assim, sem sustos e sem surpresas) com um olhar. Curioso é que, de todos os personagens, o mais humano seja justamente o de Alice, que se entrega verdadeiramente, sem ressalvas; é a única que não faz ‘jogo’ algum, sendo honesta consigo (ao contrário de Anna, que escolhe um caminho mais fácil, embora contrário ao que deseja) e com os outros. O desembarque de Alice (na verdade, Jane Jones, como descobrimos neste instante) no saguão do aeroporto americano parece fechar este capítulo em sua vida.

Juro que fiquei algumas horas perdido, entendendo o filme. Revi. E dias depois, revi novamente. E outro dia, também. Pensem nesta história contada com os diálogos mais precisos, cortantes, afiados que se possa construir. Pense em um filme com quatro personagens apenas, todos entregando uma performance inimaginável… é este filme. Grande, grande filme. 🙂

duas semanas de vagabundagem explícita

Tuesday, December 15th, 2009

…nadando às 15hs, tomando chuva sem medo, indo no shopping de manhã, estudando um cadim (mas menos do que deveria, ainda), mas só o que eu gosto… lendo, navegando atrás de inutilidades, andando à toa pela cidade… coisa boa que é ficar longe do trabalho por duas semanas inteiras. Restinho (saldo) de férias que tinha de acontecer este ano ainda, impreterivelmente!!! 🙂