Archive for September, 2008

Confissão – Um Quintana especial

Tuesday, September 30th, 2008

“Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!”

É do Mário Quintana, de 1990. Levei um susto… sou eu ali. Grandes e pequenos terremotos, a maioria silenciosos. Alguns bons.

Os óculos, os riscos e as histórias pra contar.

Thursday, September 25th, 2008

Outro dia, passeando em um shopping próximo ao trabalho, esperando a hora de voltar do almoço, entrei por curiosidade em uma loja de óculos esportivos. Descolados, bonitos, centenas de modelos, e com uma vendedora que desmonta a loja e te faz experimentar todos os que você gostou, enfim… foi difícil sair dalí de mãos abanando, mas eu saí assim, e com o bolso intacto. O que me fez desistir foi lembrar de meus óculos de sol, um RayBan  escuro comprado (estes sim) em um momento de loucura, há dez anos. Pra descrever estes óculos, as pessoas variam entre óculos de ceguinho (“agora falta só o Labrador, Ricardo!”) a óculos de tarado (“se eu te vejo na rua com ele, mudo de calçada!”). Eu gosto demais deste RayBan, e sei que o modelo sequer é fabricado atualmente (Celebrities Caribe).

Mas o que torna estes óculos realmente especiais, para mim, é que eles têm histórias pra contar. Eles andaram comigo por dezenas de milhares de quilômetros; eles estavam comigo em momentos muito bons, com gente que eu amo, amigos, família, e uma garota que nunca mais ví. Participaram de sorrisos e esconderam lágrimas. Eles me ajudaram a enxergar em meio a confusão do trânsito da cidade, seguraram a onda na estrada, aguentaram sol, calor, chuva. Caíram no chão do carro, foram largados de mal jeito no porta-luvas, ganharam pequenos riscos, marcas. As marcas não impedem o uso (são leves), mas elas estão lá, pra sempre.

Algumas pessoas são assim também; elas se tornam especiais não só pelas histórias que viveram, pelas marcas que ganharam, mas pelo que fizeram disto. Viver marca. Só não vai ter os risquinhos na lente quem ficar no estojo, se protegendo; mas de que adiantaria um RayBan novo hoje, se ele não tivesse participado de todos estes momentos? Não podemos ver os risquinhos, as marcas que viver deixou nestas pessoas, quando conhecemos apenas a história delas. Ouvimos muito o que foi vivido, pouco o que foi experimentado. Perceber os tais risquinhos exige afeto, atenção, paciência. Vale a pena? Vale. Pessoas com risquinhos são mais interessantes; preocupam-se mais com as outras, amam de um jeito diferente. Tem menos certezas, mas estas certezas são grandes e essenciais; tem menos ilusões talvez, mas respeitam mais os sonhos. Amo imensamente a ambos, pessoas com risquinhos e meu Rayban velho.

Edward Hopper, primeiras e segundas impressões

Thursday, September 18th, 2008

Nighthawks Summer evening Gas Station

Woman at the sun Hotel room

Edward Hopper – pintor por excelência do novo viver norte-americano do pós-guerra – sempre pareceu-me um artista aclamado pelo público mais pela primeira impressão que suas obras deixam – a de familiaridade (creio que ainda maior para o público de seu país, mas em um mundo cada vez mais igual e repetitivo, não duvido que outros povos se identifiquem). Seus cenários e tipos são comuns do dia-a-dia das cidades.

A segunda impressão destas obras, creio que uma parcela bem menor do público tenha dado a atenção devida: em todas as cenas em que aparecem figuras humanas, elas estão banhadas pela mesma luz absoluta, implacável do cenário. Esta luz ilumina mais do que a figura deles; ela parece transfixar em cada um deles uma angústia, uma incerteza e uma solidão absoluta que nascem juntamente a este “novo viver” (a modernidade?).

São ruas, escritórios, cinemas, bares, hotéis; em suas cenas noturnas (o famoso Nighthawks, o café de esquina em que o casal conversa) a tal luz absoluta impede qualquer comunicação maior, qualquer expressão verdadeira. Mesmo quando suas modelos estão nuas ou seminuas, não há desejo em cena: há apenas a tal solidão. Em outro quadro, chop-swey, duas mulheres estão sentadas em um restaurante; uma nos olha de forma fixa, como se quisesse atravessar a barreira imposta pela obra e nos falar algo. Ela não olha para sua amiga, mas para o espectador (Hopper, nós mesmos).

Hopper me parece, de alguma forma, um provocador: contrapõe o ambiente tão caro aos sentimentos de seu público (o sonho americano e exportado) aos seus resultados (um modo de vida egoísta, solitário, desumano). O mundo iluminado, higiênico, asséptico e planejado abrigando vidas sem maior motivação. Provocação de gente grande, gênio mesmo.

Summertime Morning Sun Summer Interior

New York movie Office at Night chop suey

Não mude.

Wednesday, September 17th, 2008

Srta pontinho, por favor, não mude. Não mude por ninguém, exceto por você mesma, quando você quiser, o que você entender que deve mudar. Mas, se puder, não mude muito. Não se torne outra pessoa, que eu gosto demais desta que eu conheço hoje. E por tudo que te for mais sagrado, não mude muito esta cabecinha que eu adoro e entendo. Se eu fosse honesto comigo mesmo, te diria que adoraria adicionar um pontinho ou dois a esta história; mas estou aqui é pra ser absolutamente honesto contigo, e por isso te peço mais uma vez: não mude. Não mude nada que você achar que não deve.

Eu preciso…

Friday, September 12th, 2008
Entre Campo Grande/MS e Três Lagoas/MS

Preciso disso. Sério. Não preciso de um carro caro, não preciso de hotéis de luxo, não preciso de motivos, não preciso de muita coisa além da estrada, do horizonte amplo, do verde, da luz. Aprendi a gostar disso, vivendo dividido entre dois estados distantes – Paraná e Mato Grosso.

Treinei a infância inteira como passageiro nas décadas de 70 e 80; depois, no ônibus, vezes e vezes, por um dia inteiro e 1200 quilômetros. Por fim, em 1994, coloquei meu carro (então um VW Brasilia com 16 anos de uso) na estrada, lembrando apenas dos nomes dos lugares e tendo uma noção do caminho. Batismo.

Fui mais longe. Ganhei jeito com a estrada, aprendi a respeitá-la, levei sustos, vi coisas lindas e que não caberiam em uma fotografia. Descobri postos, hotéis, restaurantes, cidadezinhas. Tipos humanos que só existem alí. Experimentei caminhos diferentes, trajetos diferentes; fui além do Paraná, e encontrei Santa Catarina, litoral. Mar então. Serras de tirar o fôlego e apertar o coração. Florianópolis. De outra vez, o interior de Santa Catarina, e por fim o Rio Grande do Sul, Gramado, Canela, Freeway, Floripa novamente.

Se puder, vou mais longe; sete, oito, nove mil quilômetros. Gosto do ritual que antecede a viagem, gosto de deixar espaço para o improviso (“e se a gente dormisse nesta cidade e não na outra??”). Gosto de parar para fotografar, para apreciar um trecho bonito. Para agradecer a chance de estar alí, naquele momento, vivendo-o.

Quatro Mexicanos

Wednesday, September 3rd, 2008

KahloDiego RiveraCarmen Mondragon (Nahui Olin)Gerardo Murilo (Dr Atl )Frida Kahlo e Diego Rivera, 1932

Diego Rivera, pintor nascido em 1887, muralista de cores vivas e motivos populares, ativista político radical, deixou obra riquíssima – painéis e murais retratando história, contradições, alma e vida de seu povo e época. Casado com

Frida Kahlo, pintora nascida em 1907, usava as mesmas cores vivas e influências indígenas, em uma obra mais introspectiva, reflexiva, porem sempre inquietante. Eram da mesma “turma” de

Gerardo Murilo, o Dr. Atl, pintor nascido em 1875, retratou paisagens impressionantes, também foi escritor, e um apaixonado por vulcões. Dr. Atl manteve um produtivo mas também tempestuoso relacionamento com

Carmen Mondragon, ou Nahui Olin, como ele a rebatizou, pintora e escritora nascida em 1893, figura intensa e presença constante na obra de pintores e fotógrafos mexicanos da época. Sobre ela, a melhor descrição é do próprio Dr. Atl, acerca do dia em que a viu pela primeira vez: “…Pero sus ojos verdes me inflamaron y no pude quitar los míos de su figura en toda la noche. ¡Esos ojos verdes! A veces me parecían tan grandes que borraban toda su faz. Radiaciones de inteligencia, fulgores de otros mundos. ¡Pobre de mí!”.

Frida KahloDiego Rivera - AlamedaDiego Rivera - Menina com LiriosGerardo Murilo - Serranias