Author Archives: riquati

anotações de uma sexta-feira

A beleza, quando ainda não tomou consciência de sí,  é  algo comovente pra caramba. Pensava nisso outra sexta-feira, final de  aula…  havia assim uma colega, prontinha pra balada, no caminho desta aula;  e eu  tentando  não perder o curso da aula  (era uma destas aulas realmente imperdíveis) nem tampouco o discurso poético, inocentemente feliz de algumas curvas mais exibidinhas que de costume, desta  beleza  distraída e agitada, de um  brilho extra no olhar que só a promessa de uma sexta-feira traz.  Comovente.

Chão de estrelas

De Orestes Barbosa e Silvio Caldas, Chão de Estrelas tem alguns dos versos mais lindos que eu já lí. Primeiro, é bom que se diga, a música tem seus 75 anos – é uma senhora respeitável, nascida em 1935 e com os contornos do português da época. Segundo, eu a descobri bem tarde: em 1956, Manuel Bandeira já dizia que, se fizessem um concurso para a escolha do verso mais bonito do mundo escrito em nossa língua, ele votava no “…Tú pisavas nos astros, distraída…”. Eu acompanho  o voto ilustre e acrescentaria ainda que, cada vez que leio/ouço o bendito verso, me dá um travo aqui na garganta. De beleza mesmo,  de susto. Que beleza demais, sem aviso (“olha, tá vindo um verso daqueles”) dá susto. 🙂

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão”.


Schopenhauer Bar

Tive um sonho estranho, ontem à noite: eu tinha um bar. Não um boteco pé-sujo, mas um boteco de respeito: um deck com vista para a cidade, umas vinte e poucas mesas de madeira espalhadas por este deck, um pequeno palco onde uma dupla passava o som (“Desenho de Giz”, voz e violão, tocavam e olhavam para o caixa, onde eu estava – meio tentando agradar, meio sacaneando, eu acho). Garçons chegando em velhas Cegês barulhentas, estacionando no fundo do bar,  a briga pelo WC para vestir o uniforme – minha caixa, uma univesitária loira enorme e espirituosa, demora meia hora lá dentro e leva ao desespero a turma da bandeja, que bate à porta, apressa inutilmente a moça. Que sai, deixando um rastro de perfume forte, e respondendo às gracinhas dos garçons (e ganhando a parada, na maioria da vezes). É uma figuraça, a loira.

Logo, a cozinha vai estar atendendo – vejo o trio pelo guichê, preparando o básico para uma noite de sábado. Peço uma meia-porção de calabresa e filé, que divido com a caixa junto à uma cerveja – é quase um ritual, antes de começarem a chegar os clientes. Daqui a umas duas horas, se a noite for boa, ninguém terá tempo para nada, e o bar se transformará num organismo vivo, frenético, um vai-e-vem de pedidos e bandejas realmente assustador.  Confiro os últimos detalhes antes de abrir o portãozinho que dá acesso ao deck do bar: geladeiras organizadas, banheiros estão limpos (que vergonha, quando fui cobrado por uma cliente), os garçons apoiados no balcão esperando – dou um sinal e eles se distribuem pelo bar. Desço a escada e abro o portãozinho, a rua vazia ainda. No letreiro, Schopenhauer, vítima de um trocadilho engraçadinho (‘hora do chopp’??) rí para mim, numa caricatura de traço fino, bebendo seu chopp.

faz algum sentido?

…eu estava num canto da rua, batendo papo, quando ví aquele aceno ao longe, e a reconheci. Acenei de volta, mas não era nada do que eu queria fazer: queria era ir até lá e parar alí um minuto ou dois que fossem, perguntar o que acontecia com ela, que eu sabia diferente. E ajudar no que possível, fazer-lhe alguma diferença. É estranho o mecanismo, esta lógica pela qual se vive e age: uma convenção (social, cultural, é só escolher) ter a força de evitar que se possa oferecer um cuidado, um afeto, um estou-aqui-se-precisar, para alguém de quem não se é tão íntimo ou coisa que o valha, mas que se conhece mais que o suficiente para admirar e querer bem. Oferta que ninguém, nem mesmo ela, entenderia direito, vinda de mim. É isso.

Na mesma hora e local

Eram quase dez horas da manhã e, da janela do quarto do hotel, eu via uma Cuiabá atípica. O calor abrandara, o horizonte ganhando um fundo de algodão por toda a parte.

Fechei a cortina até deixar apenas uma réstia tímida de sol, suficiente para seguir teu sono. Voltei para baixo do edredon e para perto do teu conforto, tua presença. Me aninhei à tua volta, num abraço preguiçoso, carinho sem maior intenção. Brincava nos teus cabelos, seguia teu rosto. E na tua voz arrastada, de criança contrariada: “que horas são?”.

– Cedo… dorme mais um pouco, dorme…

Escrito em um hotel em Cuiabá, em um dia nublado, às dez horas da manhã, mas durante uma apresentação técnica (que jamais leiam isso). Impressionante o tanto que conseguimos, a partir de uma situação, imaginar outra realidade mais bacaninha…

Teoria da Conspiração – Crie a sua!

A revista Wired dá sua colaboração à uma paranóia mui querida nos EUA, a das teorias conspiratórias. O assunto é tão sério que já rendeu até estudos sociológicos e de mídia que analisam o fenômeno (deve ser um barato fazer uma análise séria, com todo o método e rigor, de algo tão non-sense), livros tentando explicar o mecanismo da criação/divulgação/afirmação destas teorias – basicamente, um misto de sensacionalismo e desconfiança do público nos fatos divulgados, seja pela imprensa ou pelo governo, que se espalha informalmente e atinge a percepção de realidade dos norte-americanos. Resultado (ou trauma?) dos anos de Guerra Fria, explica a fascinação deles com a tal “área 51”, Roswell, Kennedy, o Onze de Setembro, Marilyn, Lady Di, o programa espacial americano, e qualquer coisa que dê errado e envolva mídia, governo e cultura pop. A teoria conspiratória é a “meia-mãe” dos (maledettos) “hoaxes” da internet, pra quem quiser saber…

Numa brincadeira pra lá de divertida, a Wired criou um ‘gerador de teorias da conspiração’ – você vai lá, preenche os campos (sorry, só em inglês…) e cria sua própria teoria da conspiração, com os fatos e argumentos mais saborosos que encontrar! Logo abaixo do tal ‘gerador’, há uma coleção de ‘teorias’ criadas pelos leitores. Vale demais a visita, aqui: http://www.wired.com/magazine/tag/conspiracy-theory/. Faça a sua também!! 🙂

The Chills / The Great Escape

Taí uma esquisitice que eu gosto… Chills, fazem um som diferente (já era diferente do ‘bolo’ nos idos de 80, e agora soam ainda mais fora do comum), uma linha de baixo consistente e uma guitarra sempre acertada com os vocais (e principalmente, com as ótimas letras) de Martin Phillipps. Conheci os neo-zeolandeses por uma versão feita pelo House of Love, uma das minhas bandas favoritas, do hit Pink Frost. Pink Frost não é exatamente uma música ‘digerível’ – ao menos o tema – mas tem uma linha de baixo realmente empolgante, e uma melodia que ‘gruda’ no ouvido por dias.

A música acima, embora menos conhecida, considero mais representativa dos Chills… letras inclusive. Fala da sensação de que deve haver um mundo enorme, desconhecido, a ser explorado lá fora; a idéia de que, ‘fora daqui’, pessoas e vida serão melhores. Fala de uma vontade de fuga, total, que vivi (e vivo, esporadicamente), e conheço bem. Uma ilusão necessária.

“I sit here and wonder
I wonder what’s out there
I wonder what’s out there?
I hope they can hear me

I’m making plans for the great escape
The great escape from here
I’m taking off for a better place
and better people who care
And no-one can hear me
No one can hear me

There’s light and there’s dark
and sometimes I just can’t tell them apart
I’d rather drink a wishing well
if this is the way things are

And no-one can hear me
No-one can hear me
No-one can see me
and no-one comes near me
No-one”

Jóia rara

“I was young and carefree
Not a song had found my soul
Lost in Blues, Jazz and Ragtime
No Sound had got to my mood
I was searching for my melody
Love blues that gets me wooed

All along, sad clown with his circus closed down
Lost on my merry-go-around
Came a melody in my heart so yearning
Taught me to hear music out of love
From the soul, for this life
We all live infinite
With a lover and beloved

As one Ellington sound of love”

Charles Mingus, ‘Duke Ellington’s Sound of Love’  – momento iluminado…  🙂

recomeço

… estudar à noite novamente, em uma turma que ainda não conheço, voltar ao trabalho (com a parte boa, que são os amigos, e a parte chata, de  um trabalho que há tempos já não me satisfaz), voltar à rotina. Boa e má. Nem imagino o que este 2010 reserva, o que ele traz. Se eu pudesse, talvez escolhesse outra; mas a escolha que tenho no momento é esta: tocar adiante. Difícil acomodar a alma em tão pouco espaço, mas tento.

Verde, verde até o horizonte. De trem.

Em algum ponto da linha Curitiba / Paranaguá, fevereiro de 2010.

É a vista da janela do trem que faz a linha Curitiba / Paranaguá, atravessando um bom trecho de mata intocada. A história desta ferrovia é impressionante – construída entre 1880 e 1885, tem 110 km, grande parte em áreas de difícil (quase impossível) acesso por terra, vales, despenhadeiros. Carregando mate e suprimentos entre as duas cidades,  alavancou o crescimento do Paraná e a integração com o litoral.

Foram necessários 9.000 homens para construí-la, desafio que engenheiros europeus recusaram-se a encarar (e os brasileiros aceitaram). Metade destes trabalhadores jamais retornaria para casa (imaginem como eram as condições de trabalho, à época); a ferrovia era (e é) algo assustador e  grandioso, encravada na rocha a centenas e centenas de metros de altura, cortando a mata nativa, atravessando rochas, esgueirando-se por paredões, equilibrando-se em pontes altíssimas acima da mata.

A viagem praticamente inteira é banhada de verde, numa proporção que já nos esquecemos como é; o ar muda, o ruído da mata se mistura ao do trem, e, a 30 quilômetros por hora, não se quer perder um detalhe só do percurso.

uma das muitas pontes da Ferrovia Curitiba-Paranaguá

uma das muitas pontes da Ferrovia Curitiba-Paranaguá

Nascente

Aí surgiu, sem aviso, você. Eu nem percebi nada além de uma menina bonita e ainda um pouco deslocada no meio da algazarra. Me lembro: não brinquei contigo, não puxei conversa, não tentei a sorte. Demorou acho que um mês ou mais, até que tive de ir falar com a menina com cara de brava pra pedir alguma coisa. Do que eu ia pedir, virou uma conversa de outro assunto, e outras, que se tornaram várias e variadas, diárias, muitas.

Fiz uma viagem de dentro pra fora, das tuas idéias até a idéia tua. Eu precisei conhecer um lado menos óbvio, tua  vida e tua história,  estrela e coração – pra que pudesse ver você além da mulher simplesmente bonita que estava alí. Em silêncio, me orgulhei da descoberta. Ouro. Quase Neil Young, ‘I’ve been a miner for a heart of gold‘.

“Closer – perto demais” – antes tarde…

Natalie Portman, a Alice de Closer

Natalie Portman, a Alice de Closer

Assisti, com alguns anos de atraso, Closer – perto demais. O motivo do atraso é risível: preconceito. Jamais achei que um filme com a Julia Roberts pudesse ser sério ou, pior ainda, ela desse conta de um papel mais denso. Caí do cavalo, feio… a água com açúcar passou longe de Closer. O filme é rico, tanto nas atuações como, especialmente, nos diálogos (brilhantes). É um filme enxuto: quatro personagens, alguns cenários (simples), muito diálogo. Daria fácil uma peça de teatro, e não procurei saber, mas não duvido que seja esta a origem dele.

A história começa de forma relativamente simples: uma garota meio maluquinha, ex-stripper nos EUA e recém-chegada a Londres (Alice, interpretada por Natalie Portman) é atropelada por um motorista de táxi, e socorrida pelo jornalista e escritor em início de carreira Daniel (Jude Law); eles iniciam um romance, e Daniel aproveita a história de Alice como argumento para seu primeiro livro. Prestes a ser publicado, Daniel conhece a fotógrafa  Anna (Julia Roberts), recém-divorciada, durante uma sessão de fotos. Anna é uma mulher madura, de visão prática e sem muitas ilusões; ela a princípio evita envolver-se com Daniel, contrariando a atração que surge entre ambos. Daniel, rejeitado por Anna, mantém o relacionamento (já algo desgastado) com Alice, mas não consegue deixar de procurar/observar Anna. Ela torna-se uma espécie de obssessão para ele, que a espreita pela janela, na rua, segue seus passos; Anna encarna neste momento a aventura da conquista. Neste misto de desejo e impossibilidade, ele resolve brincar com o destino, fazendo-se passar por ela em um chat erótico, e promovendo o encontro dela com o médico Ben (Clive Owen). Neste encontro, ao invés de pregar uma peça em Anna, como era sua intenção, ele a apresenta ao seu futuro marido. O tiro sai pela culatra e Ben, sujeito sem muito refinamento, mas prático e objetivo como Anna, acaba por levá-la ao altar. Ele a ama, mas de uma forma previsível, comum, quase contratual. Ambos obtém a estabilidade almejada, mas não a realização do ideal romântico: sua relação é mais de posse mútua, compromisso, do que a experiência de uma verdadeira aventura amorosa. Anna ressente-se disso e, com o tempo, cede à esta ilusão, agora representada por Daniel – o amante, fogoso, interessado, apaixonado, diferente. Ben, o marido, contenta-se com uma escapada ocasional (e confessada), de forma que, em sua visão, não há nada errado em seu casamento.

Quando a situação foge ao controle dos amantes, eles resolvem abrir mão de seus relacionamentos atuais, e viver este ‘novo’ amor. Anna tenta separar-se de Ben (que entra em uma espécie de colapso emocional, ao perder o ‘chão’ do casamento) e Daniel abre o jogo com Alice, talvez o personagem mais interessante (e mais sofrido, também) dos quatro. Alice vai-se da vida de Daniel (embora ele tente mantê-la, retê-la) e volta à rotina de stripper em um clube, enquanto o (novo) casal apaixonado tenta conseguir os papéis da separação dela. Daniel, porém, não consegue confiar totalmente em ninguém (sua busca incessante pela verdade dos outros é proporcional à velocidade com que oculta a sua) e, em uma recaída de Anna (que transa com o ex-marido em troca da assinatura deste nos papéis do divórcio), perguntas demais exigindo respostas honestas demais irão destruir a ilusão que Anna ainda possui do seu ex-amante e pretendente a marido. Daniel busca na verdade alheia o escudo para sua mentira, sua incapacidade de se envolver/entregar por inteiro, sua necessidade de manipular emocionalmente as pessoas. Neste meio tempo, Ben encontra Alice, casualmente, no trabalho dela. Esta é uma das cenas mais brutais (e paradoxalmente, também mais bonitas) do filme. O genial diálogo dos dois, na cabine de strip-tease, cresce de forma ferina, em que o controle do jogo se alterna, pergunta a pergunta, resposta a resposta. Ele quer a todo custo a verdade (novamente) dela, mas não percebe quando a obtém. Quando seus recursos (verbais, financeiros, emocionais) se esgotam, depois de ter sido ríspido, arrogante, Ben finalmente entende sua situação. É a hora em que, orgulho deixado de lado e lágrimas chegando, vem a declaração mais surpreendente possível. “Eu te amo. Eu amo em você tudo aquilo que dói.” – ou seja, a fragilidade dela (estrangeira, stripper, jovem, abandonada, solitária – toda sua situação). É, de alguma forma, um momento em que Ben permite-se admitir a própria fragilidade também, o fundo-do-poço em que se encontra pela perda do amor de Anna.

O filme dá um pequeno salto temporal e vemos Daniel, começando a entender que o amor (e confiança) de Anna está escorregando por entre seus dedos. Desesperado, parte para o consultório de Ben, pedindo que ele a abandone, acusando-o de não a perdoar (o que ele refuta) e de amá-la sem entusiasmo, ‘como um cão a seu dono’. Ben, confortável no controle da situação (e novamente com Anna, à sua maneira), pergunta a Daniel se ele sabe o que significa ‘compromisso’; e diz que ela já fez a sua escolha (o que é verdadeiro; uma escolha pela estabilidade). Ben diz a Daniel que encontrou Alice e escreve em um receituário o endereço do inferninho onde ela trabalha (adicionando, antes que Daniel pergunte: “Não, eu não transei com ela”). Quando Daniel dirige-se à porta, chorando e agradecendo a informação, Ben o interrompe: “Dan… não consigo ser assim tão nobre contigo. Na verdade, transei com Alice. Sinto muito”. É a declaração que selará o destino de Daniel, cedo ou tarde. Sabemos (mesmo sem ter visto o final do filme) que, em algum momento, a compulsão de Daniel em ‘saber tudo’, o trairá. Ben segue sua vida, após obter (de modo não muito ético, mas a seu ver válido) Anna como sua esposa novamente, sem se preocupar muito com a satisfação dela. Para ele, Anna é muito importante em sua vida, mas como uma base emocional, não como uma companheira. Ele a vê como uma depressiva que precisa constantemente de situações assim (o relacionamento onde estão) para afirmar sua visão de mundo, e não se importa com isso, desde que a tenha por perto. Prático, objetivo, egoísta e, assim como Daniel, manipulativo.

Daniel e Alice retornam às boas, e, em novo salto temporal, acompanhamos o dia anterior ao embarque dos dois, em férias, aos EUA. Entre recordações de como se conheceram, bons momentos, Daniel (previsivelmente) esbarra neste assunto, a noite em que Ben encontra Alice no trabalho. E a pergunta vem, para desconforto dela; e insistente, querendo a tal verdade absoluta, os fatos, o ocorrido… até que vemos o semblante de Alice mudar. É como se a câmera capturasse o exato momento em que ela se dá conta de quem Daniel é, de sua fraqueza, sua torpeza. É tão claro, que podemos ler isso nos olhos dela… Daniel sai para comprar cigarros e retorna, no meio do caminho, pedindo desculpas… finalmente, entende a frase de Ben (“não consigo ser assim tão nobre contigo”). Já não há o que remendar, e após ouvir a verdade, em uma discussão que termina em briga, vemos Alice indo embora sozinha para os EUA. A câmera retorna para a cama de Ben e Anna, ele fechando o livro que está lendo, ela olhando perdida para o lado – nenhuma emoção, nenhum envolvimento, apenas a convivência (e conveniência). Anna fez sua escolha pela segurança, pelo conhecido, pelo previsível. Incrível como Julia consegue transmitir isso, este sentimento (a vida prosseguirá sempre assim, sem sustos e sem surpresas) com um olhar. Curioso é que, de todos os personagens, o mais humano seja justamente o de Alice, que se entrega verdadeiramente, sem ressalvas; é a única que não faz ‘jogo’ algum, sendo honesta consigo (ao contrário de Anna, que escolhe um caminho mais fácil, embora contrário ao que deseja) e com os outros. O desembarque de Alice (na verdade, Jane Jones, como descobrimos neste instante) no saguão do aeroporto americano parece fechar este capítulo em sua vida.

Juro que fiquei algumas horas perdido, entendendo o filme. Revi. E dias depois, revi novamente. E outro dia, também. Pensem nesta história contada com os diálogos mais precisos, cortantes, afiados que se possa construir. Pense em um filme com quatro personagens apenas, todos entregando uma performance inimaginável… é este filme. Grande, grande filme. 🙂

duas semanas de vagabundagem explícita

…nadando às 15hs, tomando chuva sem medo, indo no shopping de manhã, estudando um cadim (mas menos do que deveria, ainda), mas só o que eu gosto… lendo, navegando atrás de inutilidades, andando à toa pela cidade… coisa boa que é ficar longe do trabalho por duas semanas inteiras. Restinho (saldo) de férias que tinha de acontecer este ano ainda, impreterivelmente!!! 🙂

mini-continho de hotel

…sei que fiquei hospedado num hotelzinho bacana, bem cuidado, não muito caro e discreto, no entroncamento da Av. Paulista com a Consolação. Era cômodo – meia quadra da empresa onde faria o treinamento – e acertei com o hotel um preço diferenciado, pelas diárias e por uma refeição que eu escolhesse (no caso, o jantar) no restaurante do hotel. Este chamava-se Dali e era decorado com reproduções do pintor catalão nas paredes e detalhes; e pequenino, coisa de vinte e poucas mesas, se tanto.
Todo dia, escolhia um prato diferente do cardápio e me divertia com estas férias imprevistas, num hotel com cara de flat (o prédio fora projetado para apartamentos de quarto-e-sala, e transformado em hotel na década passada) e com uma semana de restaurante livre (simples, mas bom), num pedaço bonito de São Paulo que eu ainda não conhecia. Sempre descia lá pelas 20:30, escolhia o prato da noite, e ficava enrolando em minha mesa por quase uma hora, observando as outras mesas, casais de passagem pela cidade, amigos que combinaram um jantar, gente sozinha como eu, vendedores barulhentos, namorados. Era uma espécie de passatempo, estudo sociológico e alternativa para a tevê do quarto – com imagem e variedade melhores.
Um dia – uma quinta-feira – desci, e encontrei o restaurante estranhamente vazio. Eu era o único cliente alí. Procurei algo no menu e pedi (meio desconfortável) meu jantar; é uma sensação estranha a de um restaurante vazio – a cozinha só servirá você, o garçom idem, e aquele ambiente mesmo pequeno pareceu-me subitamente exagerado, desproporcional. E bem neste dia, enquanto esperava meu pedido, entrou a mulher sozinha. Eu nunca a vira antes alí, e era realmente linda, de perder a respiração; uma morena de corpo e rosto perfeitos, de seus trinta anos, num vestido preto discreto, aliás, uma tentativa impossível de discrição.
Era bonita demais para não ser notada, nem que o restaurante estivesse lotado; e pior, os gestos, o olhar, a segurança dela eram algo de outro mundo. Sentou numa mesa diametralmente oposta à minha, no restaurante agora enorme, e me estudou pelo resto do tempo do jantar. Fiquei incomodado; eu levantava o olhar para qualquer lugar próximo, e aqueles olhos me seguiam, me espetavam na parede mais próxima. A cidade dava o troco à minha indiscrição das noites anteriores.
Nunca descobri quem ela era, ou o que fazia. Tímido demais pra atravessar o restaurante e abordá-la na cara dura, e numa dúvida imensa (profissional? hóspede? solitária? procurando diversão? esperando alguém que não veio?), ví a morena ir embora deixando para mim um sorriso sem muita explicação. Procurei no rosto do garçom alguma outra, mas não havia expressão além daquela de quem espera o fim do expediente.

Marquei bobeira? Provavelmente sim. Figuraria fácil entre as 10 mulheres mais bonitas que já ví, e era uma presença realmente impressionante – porte, andar, voz, olhar, tudo. Do tipo que faz um estrago sem volta na vida do sujeito, se der na telha; era – assim dizer – um mulherão, saída de uma cena de cinema. Femme Fatale. Se estava alí trabalhando, se procurava companhia ou diversão, ou se estava só passando o tempo vendo-me atrapalhado com aquele olhar insistente (curioso, mas experiente), em cima da minha óbvia timidez caipira, é dúvida que fica pra ser resolvida no dia do meu acerto de contas. Aí eu descubro.

Anima (apenas um pensamento avulso…)

Somos, nós, os humanos, imensamente complexos. Mesmo a mais simples das pessoas, de pés no chão, preocupada apenas em se manter viva até o dia seguinte, é infinitamente complicada – uma prodigiosa seleção de lembranças, experiências, crenças, intuições, aprendizados, interpretações, referências, projeções, desejos; ódios, afetos, temores, certezas, tudo aquilo que transcende a carne, anima-a, dá uso e razão à ela. Diante desta construção – forte como um sopro primeiro de vida, imensa, única em sua combinação – nos sentimos paradoxalmente grandes e pequenos, somos a obra engenhosa que não alcançamos conhecer completamente; e transitórios, porque reconhecemos a brevidade de nossas pegadas na areia do tempo.

Daquelas vontades súbitas

… de largar na mesa e no trabalho a legião de problemas, probleminhas e sua infinita prole, de comprar da empresa uma tarde livre,  para desperdiçar sem dó, sem cerimônia. Vontade súbita de uma mulher que entendesse, sem cerimônia, um abraço longo feito o tempo, um carinho torto feito a vida, e assim. Vontade súbita de um canto tranquilo, longe deste mundo mas bem mais perto de alguma compreensão.

Monica e o Desejo

Harriet Anderson, em cena de Monica e o Desejo

Assisti estes dias a um filme que era uma grande curiosidade minha há pelo menos 12 anos: Sommaren med Monika, ou Monica e o Desejo, do Ingmar Bergman. Deve ser meu quinto ou sexto Bergman e, verdade seja dita, temos uma relação complicada: gosto da sinceridade e da coragem dele, mas há cinza demais (e não estou me referindo à soberba fotografia p&b) na vida e na alma de seus personagens. Deve ser uma barra bem pesada representar alí. Com Monica e o Desejo não foi diferente; a imagem de Harriet Anderson, selvagem, belíssima em seu início de carreira (disse Bergman em uma entrevista que os diretores de cinema e teatro suecos mais novinhos eram apaixonados por ela; é ver o filme e entender os motivos…), a fotografia em preto-e-branco em que cada fotograma poderia subsistir por conta própria, a viagem de barco pelas ilhas Faroe, é quase uma versão pessoal (Bergmaniana) do paraíso. Paraíso que a realidade vai dar conta de destruir, na segunda metade do filme, até transformá-lo no tradicional inferno de Bergman: inadaptação, traição, uma gravidez indesejada, horizontes cada vez mais limitados, choque, desilusão, opressão. A felicidade que o destino constrói dura pouco, e a vida há de carregar.

É uma análise simplista esta minha, eu sei. Indigna quase, depois de ter visto outros Bergmans como O Sétimo Selo, ou Morangos Silvestres. Ou ainda, quando há um Bergman menos asfixiante em seu final de carreira, como Fanny & Alexander. Mas, honestamente, o que posso dizer sobre o filme que esperei 12 anos para ver: adorei ver Harriet Anderson (e me apaixonei também), confirmei que a fotografia se sustenta sozinha, quadro a quadro, e vivi por gloriosa meia hora o paraíso Bergmaniano perdido. Sei que a história contada alí se repetiu (e repete) infinitamente, ví as dores, ví suas consequências. Mas talvez eu seja mais italiano que sueco e consiga encontrar ainda uma fagulhinha de vida, de esperança, no meio de tanto cinza.

Ursos gigantes e bombons caseiros

São dezoito horas e quinze, e meu carro está parado no estacionamento de um supermercado. Na minha frente, uma sucessão de pequenas lojinhas – xerox, um salão de beleza, um pet shop, e uma floricultura. Pois bem, estacionei em frente à floricultura, no pátio sujo do fim-do-dia; o sol já se foi, e metade do sábado também. Estou cansado e com o carro cheio de compras, venho de dois outros supermercados, e uma gripe xarope me acompanha há dois dias. Transpiro feito louco (febre, eu acho), e só penso em voltar pra casa. Até olhar com calma pra tal floricultura.

Na vitrine da floricultura, quatro bichos enormes – os clássicos ursos, sapos, macaquinhos e leões de pelúcia. O urso passa de um metro, o nariz espremido na vitrine, entre as flores da estufa. Dentro da loja, também as caixas de bombons de sempre (caseiros – alguma dona de casa defende seu dinheirinho, entre as formas e o fogão). E flores, flores, flores… o ar condicionado trabalha firme alí, mantendo-as por mais algumas horas.

Tempo de virarem oferenda a algum amor na periferia quente de Cuiabá, tempo de chegarem inteiras junto ao bombom recheado na caixa de coração, quem sabe até de carona com o urso gigante, com sorte. Alguém vai pular de surpresa, ou em alguém. Alguém vai arrumar um lugar pro urso gigante na cama, no quarto mínimo onde já não cabe mais nada, alguém vai arrumar um vaso correndo pro bouquet durar mais um dia. Alguém vai comer chocolates pensando, com um meio-sorriso, no louco que presenteou aquilo. Alguém vai olhar alguém de um jeito diferente, hoje.

Achei bacana, esqueci qualquer conceito (ou pré), e desejei de coração um sábado muito legal pra quem passasse por alí. Pra quem tivesse de se virar pra arrumar lugar pro urso gigante, pro macaco. Pra quem fosse chegar com o bouquet colorido com dedicatória feita de garranchos nervosos, o peito feito tambor. Cheio de dúvidas e esperanças, feito música romântica de rádio AM. Pra quem tocasse a campainha  e esperasse ansioso atrás do portão, equilibrando o presente, escondendo o bombom já meio derretido. Pra quem irá se derreter depois, feito o bombom.

Enfim, é isso.

uma pequena coincidência

Voltei por acaso ao restaurante (que fica longe da cidade, aliás) onde estive alguns meses e posts atrás… a garotinha bonita e de olhar insistente não estava lá. Na mesa, um vidro de molho de pimenta, de qual marca??? Ah… “La Dolce Vita”. Coincidências,  temperos da vida. 🙂