Cultivo

August 11th, 2010

…passam das onze horas da noite deste dia dez, e eu aqui na expectativa besta de algum texto. Um texto que redima o dia passado sem muito significado, com uma notícia chata  recebida à noite (uma nota baixa na faculdade, a segunda do ano),   e as repetitivas e  imensas dúvidas (existenciais?) deste sujeito que  tateando, navega a vida  e, claro, não se resolvem na meia hora que resta até o onze de agosto. Pegando carona na frase impingida a alguns vendedores de bugigangas  nos sinais e nos ônibus, o ‘eu podia tá roubando, podia tá matando, mas tou aqui vendendo isso’….  eu podia ficar realmente  triste pelo significado da nota (embora eu esteja realmente preocupado com ela),  podia estar remoendo  minhas escolhas até aqui  (o curso, o ainda estar em Cuiabá, a carreira que já tenho e a que talvez eu venha a ter).

Podia mesmo e, até, seria o caminho natural, se eu não acreditasse em uma coisa: que ânimo, estado de espírito, astral, se cultiva. Exatamente (mas não com os mesmos instrumentos) como acontece ao cuidar de uma planta. Não irá mudar minha nota quatro  uma noite insone, questionando  aptidões, circunstâncias. É evidente que algo não saiu como  o previsto e deve ser corrigido; daí ao acontecido prejudicar-me mais do que já o fez, é escolha minha. Não tenho a menor tendência masoquista. É, então, hora de cultivar o ânimo, de colocar as coisas em sua devida perspectiva;  o fato ocorreu, não cabe embaixo do tapete (tenho de encarar e lidar com o problema, e vou); os demais questionamentos, enormes, não cabem numa noite de sono. Que felizmente apareceu, mais forte que o texto.

Valsa Brasileira

August 9th, 2010

“Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer…”

Do Chico Buarque e do Edu Lobo,  bonita que só! Já me tirou o sono, já me explicou um mundo, já coloriu outro. Daí a importância.

a pin-up de vidro, aço e concreto

June 21st, 2010
Stahl House, Case Study 22, por Julius Shulman

Stahl House, Case Study 22, por Julius Shulman

São Google é mesmo mágico. Nas minhas andanças atrás de obras do xará Richard Neutra (arquiteto), curiosidade minha, acabei esbarrando ocasionalmente em algumas fotos feitas  por Julius Shulman (fotógrafo especializado em arquitetura) e na Stahl House. A história: na década de 50, uma revista estadunidense (Arts & Architecture) contratou vários arquitetos de destaque para que projetassem o que seria a casa norte-americana de então (modernista, utilizando técnicas e estruturas inovadoras, e materiais como aço e vidro abundantemente). Vivia-se o furor do pós-guerra, os recursos fartos, e os baby boomers consumiam um estilo de vida que procurava afirmar-se (e mais tarde, conseguiria, ao menos em parte). Estas casas foram chamadas de ‘estudos de caso’, sendo várias construídas de fato e algumas ainda preservadas. Com projeto de Pierre Koenig e situada em uma área reservada de Los Angeles, a Stahl House, ou Estudo de Caso 22, talvez seja a mais emblemática delas; tornou-se ícone, através das fotografias de Julius Shulman. Com sua grande área envidraçada, uma vista livre  da cidade em sua porção ‘aérea’ (parte da casa está sustentada em um penhasco por uma estrutura de concreto), a Stahl já foi descrita como ‘uma pin-up de vidro, aço e concreto’ – uma conexão evidente entre desejo e luxo, exposição e sensualidade, estilo de vida e sucesso.  Em uma de suas fotografias mais famosas, Shulman compõe uma cena noturna, na qual duas mulheres conversam na sala suspensa da casa, a vista de Los Angeles como pano de fundo. Em fotos de outros artistas, mais recentes, a mesma vista se impõe contra a piscina que margeia a casa, azul contra azul, o deck se prolongando além dos limites que a física impõe. Realmente impressionante.

Por curiosidade, a Stahl é mantida aberta à visitação, em grupos, mediante agendamento e uma pequena taxa. Aqui, o link do site dedicado à casa, com a história da casa, reservas, muitas fotos e curiosidades. Espero fazer um tour destes, ainda… ;)

A Stahl House hoje, foto obtida na Wikipedia.

A Stahl House hoje, foto obtida na Wikipedia.

Inesquecíveis

June 18th, 2010

Há muitos anos (uns dez) eu fiz uma lista de coisas que eu não queria esquecer. Era uma lista bem resumida e, verdade, deveria ter elencado umas vinte ou trinta lembranças logo – muita coisa interessante ficou de fora, e, principalmente, muita gente. Mas gostei de encontrá-la perdida num arquivo antigo, e avaliar se eu realmente esqueci alguma delas…

1. Pedro Juan Caballero num dia de chuva, rachar a parrillada e a cerveja boliviana em um restaurantezinho paraguaio com um grande amigo;

Não, não me esqueci. Íamos a Pedro Juan em ônibus de excursão, pela diversão de comprar as tranqueirinhas eletrônicas, caña paraguaia, peças de computador,  batata frita de tubo, e tudo aquilo que ainda não existia em Cuiabá em 1991/2.  Havia um restaurante do lado paraguaio que servia a parrillada, em um braseiro levado à mesa. Dois grandes bifes e muitos miúdos de boi; meu amigo adorava os miúdos e eu ficava com os bifes. A cerveja tinha quase um litro e era uma delícia, jamais encontrei em outro lugar… muy buena!!! O amigo era o Roberto Hor-Meyll, meu grande, grande amigo. Ele conseguia estas viagens para a gente com a esposa, a Maria, e saíamos do trabalho na sexta-feira direto para o ônibus; muita bagunça e muita risada depois, no domingo cedo, estávamos novamente em Cuiabá, de malas cheias e bolsos vazios!!

2. Em outra viagem, o olhar e as risadas das meninas de lá, enquanto o coletivo fazia a linha aeroporto – divisa pelas ruazinhas de terra;

Vez ou outra fui sozinho para Pedro Juan… lembro-me de ter ido buscar minha impressora (sim, em 1991 uma impressora nacional era ‘incomprável’ com nosso salário) e resolvi registrá-la na alfândega, para evitar problemas com a fiscalização. Com a mochila cheia de muambinhas pessoais e a caixa (enorme) da impressora, peguei um coletivo no centro da cidadezinha e fui até o aeroporto, longe do comércio paraguaio. Aí sim conhecí Ponta Porã e Pedro Juan: ruas de terra, jeitão interiorano, a chuva fina e alguma lama, bares de tábua, ruas de silêncio, e sim, dentro do ônibus, um grupo de meninas, estudantes, com aquele jeito (aparência, modo de olhar, rir, abordar, puxar conversa) exatos do norte do Paraná (o que eu adoro de paixão)… foi divertido. :)

3. Subir escondido no terraço do Edifício Milão, ou no INSS/Cuiabá, e perder o fôlego com a vista. Depois descer como se nada tivesse acontecido;

Eu fiz algumas vezes, em 85, 86. O Milão era ‘o’ edifício comercial de Cuiabá na época, e eu gostava de subir escondido no terraço. Não tinha nada a ver com o comércio de lá, apenas pegava o elevador e subia até o penúltimo andar… aí, escadas e a vista de Cuiabá, linda. É verdade que morava gente lá (porteiro, acho), mas isso era um detalhe… nunca me descobriram mesmo… rs…

O do INSS subi com minha irmã e um amigo, na mesma época. Despistamos os seguranças (trocamos de elevador quatro vezes no caminho!), e chegamos ao tal terraço;  na hora de descer, a mesma manobra e sucesso. Muitos e muitos anos depois, já trabalhando, universitário, etc… uma amiga  me liga à tarde, ‘estou na frente do seu trabalho’. De farra, fomos até lá e subimos, desta vez menos escondidos. Deixamos apenas um documento na entrada (dela, um crachá de estagiária já sem uso) e subimos, querendo falar com um ‘joão de tal no sexto andar’. Não encontramos o joão de tal, claro,  porque passamos direto para o terraço…

4. Fugir do serviço numa quarta-feira à tarde e ir tomar um chopp geladíssimo no bar da esquina, em pleno horário de expediente;

É verdade. Trabalhava à tarde e, quase toda semana, ia resolver problemas de madrugada (trabalhava em um banco como programador e acabei responsável, sozinho, pelo software de compensação bancária – a ‘digitação’ e troca dos cheques com os outros bancos). O problema é que o tal software só rodava à noite, e terminavam o trabalho de madrugada… meu telefone tocava tarde da noite dia sim, dia não; como não poderia deixar ‘pro outro dia’, pegava meu carro e ia lá resolver vastas plantações de pepinos. Lógico, como não recebia horas-extras, tirava algumas folgas ‘por conta’ e, várias vezes, ia parar no Goiabeiras, quando havia um terraço bacana por lá, com vista da cidade.  Chopp, uma porção de fritas, depois um cinema… três horas da tarde. ;)

5. A menina loirinha do teatro, desesperadoramente linda, perfeita, escondendo o rosto atrás da camiseta, depois de um ensaio, rindo.

É especialmente difícil escrever sobre isto, mas vamos lá: em 92, resolvi voltar a estudar (engraçado como isto é uma constante em minha vida!) e procurei o antigo colégio Anglo, hoje Isaac Newton / Cin. Era o melhor cursinho pré-vestibular da cidade, cabia no meu (apertado) orçamento de programador, e ficava no meio do caminho entre minha casa e o trabalho. Foi onde conheci a menina, e perdi-me em tentativas por uns bons dois anos. Um amigo aconselhou: ‘esquece, ela é modelo (nessa hora eu quase desisti mesmo, não curto nada deste mundo) e atriz de teatro (e aí eu me apaixonei de vez… deste mundo, eu gosto!)’.  Infelizmente (e este é um infelizmente sentido) a falta de jeito, a velha incapacidade de expressão – qualquer nome para isto que era mais que timidez apenas – minou qualquer chance de final feliz, ou, ao menos, de alguns bons momentos assim. Mas ficaram guardadas algumas cenas, e uma das que ainda me tocam, tanto tempo depois,  é de um finalzinho de tarde, em que o grupo saía do ensaio, e ela passou por mim descalça, exausta, tentando esconder o rosto atrás da camiseta e rindo, o olhar que me encantava. Pouquíssima gente, depois, teve este dom de me tirar o rumo, de preencher com mágica o que ainda não havia, de dar grande sentido a coisas muito simples.

6. Entre Colider e Alta Floresta, andar na estrada coberta pelas árvores – como em um túnel; parar em um botequim na beira da estrada e jogar conversa fora com outros viajantes, tomando café;

Quando ainda existiam árvores e a estrada não era asfaltada – algo como 1988 ou 89, creio. Meu pai tocava, com pouquíssimo dinheiro e muita vontade, um jornal tablóide que circulava semanalmente no norte de Mato Grosso. É uma lembrança impressionante: a floresta cobria a estrada, e só não a invadia por conta do tráfego desta. As árvores encontravam seus galhos acima da estrada, em alguns pontos, e o cheiro úmido e frio da mata era constante. Andava-se não ao lado, mas em meio ao verde… meu pai, cansado de dirigir nosso velho Ford Corcel azul, encostou em um botequim de beira-de-estrada. Colonos gaúchos tocavam o barzinho, com o sotaque puxado e o jeito de servir do Sul. Quando a estrada afastava-se um pouco da mata, o céu que se via era claro e extenso, infinito. Fotografia alguma capturaria aquilo, e nossa proporção em relação ao mundo se fazia dramática – algo estranho e forte, mas esclarecedora e, de alguma forma, religiosa – no sentido exato de religar-nos a algo superior, a uma força além, incompreensível, mas perfeitamente discernível. Algo que todo mundo deveria experimentar um dia.

7. Invadir a pista do aeroporto para ‘fotografar o 737 mais de perto’, e sair escoltado por dois agentes da Infraero;

Fiz. Era um garoto louco pela aviação, que sonhava em ser piloto e, até, de garimpo (!), e ia ao aeroporto de Várzea Grande  todo domingo junto ao pai, buscar as pilhas de jornal (Folha de São Paulo e Folha de Londrina) para distribuir nas bancas. Hoje é praticamente impossível algo assim acontecer, mas em 85, quando Cuiabá era uma cidade muito menor e mais simples, tranquila, eu fiz. Catei a máquina fotográfica, aproveitei a distração do meu pai e fui lá pra pista, ‘tirar umas fotos’, que ainda tenho… :)

8. Almoçar no Restaunte Rodeio, quando estiver em Londrina. E se sentir um pouco na cidadezinha de 1970, andar pelo calçadão, sem pressa, sem destino;

Sagrado. Vou a Londrina, vou ao Rodeio. O Rodeio é um restaurante antigo, sem muito luxo, mas de mesa farta e tempero excelente. Nas décadas passadas, foi o lugar onde costuravam-se acordos políticos, onde fechavam-se negócios, onde ia-se comer bem com a família. Hoje, tornou-se um restaurante ‘prático’ (fica bem no centrinho da cidade, é justo nos preços e bom nos pratos), mas conserva o ambiente original, bem como as receitas (o filé é famoso mesmo fora do Estado) e o bom atendimento.

9. Caminhar muitos, muitos quilômetros, de olhos atentos à ‘eterna novidade do mundo’ – como ensinava mestre Caeiro.

Sim, caminho, real e metaforicamente. Os muitos e muitos quilômetros, um probleminha nos joelhos hoje me desaconselha, mas as caminhadas longas, de preferência sem compromissos, ajudam a resolver  problemas, ordenar um pouco do caos que se forma ao longo da rotina. Ainda consigo perceber a tal ‘eterna novidade do mundo’, e agradeço  esta capacidade.

Doutor??

June 11th, 2010

Outro dia ‘descobri’ que precisava de um Código Penal comentado (o tipo de coisa que acontece sempre em momentos pós-salario, não sei o motivo!) e corri até a livraria mais próxima para resolver este problema. Interessante as diferenças: para comprar um romance, você tem de procurar um vendedor, convencê-lo de que realmente vai comprar e, se brincar, ainda tem de localizar o livro por conta própria. Para comprar um livro da área jurídica, o atendimento é outro: são quase duas lojas em uma.

Abordei a vendedora, educadíssima, que me indicou dois códigos (“este aqui é mais voltado para concursos, este outro é ideal como referência”) – escolhi o de referência, com um sorriso; participar em qualquer concurso nesta área ainda é um plano distante. Enquanto fechava a nota no computador, a pergunta dela: “O doutor pretende pagar em cartão de crédito, ou à vista?”. Perdi uns cinco segundos alí: um procurando o doutor (“hei, doutor, a moça está falando contigo!!”). Outros dois entendendo (o doutor sou eu), e os  três que sobraram decidindo se eu ria, ficava quieto ou educadamente explicava minha realidade de simples estudante à menina. Optei por ficar quieto e aceitar o tratamento, morrendo de vontade de rir. Formalidade, tenho de me acostumar urgentemente a ti.

Querendo ler:

June 11th, 2010

A Casa dos Budas Ditosos, romance do João Ubaldo Ribeiro. Lí uns trechinhos na época em que foi lançado e… caramba, como é bom! Lá no site: “O livro traz a história de CLB, uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, que jamais se furtou a viver – com todo o prazer e sem respingos de culpa – as infinitas possibilidades do sexo. Seriam as memórias desta senhora devassa e libertina um relato verídico? Ou tudo não passa de uma brincadeira do autor?”. Delícia de leitura… :)

esquisitices selecionadas, primeira parte.

June 2nd, 2010

Tenho as minhas… fumo charuto social e anti-socialmente (e nem precisa ser um charuto caro, dependendo da hora até os de 2 reais a unidade estão valendo!). Socialmente, depois do churrasco, de farra e dividido, ‘cada um dá uma puxada’ (se estiver frio, então, é 10!). E anti-socialmente, sozinho, em momentos de reflexão mais séria. Não faço isso sempre (minha sobrinha deu-me três cubanos de presente, e seis meses depois ainda tenho dois e meio!), mas faço. É bom alertar.

Gosto de música, gosto demais, mais que a média. E gosto de ouvir dirigindo também. Há uns quinze anos, peguei o gosto e a manha de instalar um bom  som nos carros que tive. A esmagadora maioria das pessoas pagaria para alguma loja instalar; eu faço isto em casa, no apartamento, onde eu puder e estiver. Se eu pagar para alguém fazer isso, um de nós acabará maluco de raiva e desistirá do negócio. Já aconteceu. Nada de  som alto, mas sim de qualidade…. então, se me virem com tinta nos braços, cola de sapateiro nos dedos, mãos arranhadas, fita isolante presa no cabelo,  ou se meu carro estiver sem carpete ou forros de porta, não estranhem.

E eu torço (ou ao menos simpatizo) com o Olaria. É, o time de futebol carioca, do estádio da rua Bariri. Jamais estive lá; o máximo que cheguei foi, talvez, em projeto (meu projeto é carioca da Lapa, mas a gestação foi no frio curitibano e nasci pé-vermelho, no norte do Paraná).  Mas quando me perguntam ‘qual seu time’, a resposta vem na hora: Olaria. É um time simpático, que luta pra sobreviver, brasileiríssimo neste sentido. Acho até mais brasileiro que os grandes times, que já esqueceram destas dificuldades todas. E nunca, jamais alguém me incomodou numa segunda-feira, comentando o placar do Olaria, ou sua classificação no campeonato. A felicidade, às vezes, está nas coisas simples.

anotações de uma sexta-feira

May 24th, 2010

A beleza, quando ainda não tomou consciência de sí,  é  algo comovente pra caramba. Pensava nisso outra sexta-feira, final de  aula…  havia assim uma colega, prontinha pra balada, no caminho desta aula;  e eu  tentando  não perder o curso da aula  (era uma destas aulas realmente imperdíveis) nem tampouco o discurso poético, inocentemente malvado de algumas curvas mais exibidinhas que de costume, desta  beleza  distraída e agitada, de um  brilho extra no olhar que só a promessa de uma sexta-feira traz.  Comovente.

Chão de estrelas

May 22nd, 2010

De Orestes Barbosa e Silvio Caldas, Chão de Estrelas tem alguns dos versos mais lindos que eu já lí. Primeiro, é bom que se diga, a música tem seus 75 anos – é uma senhora respeitável, nascida em 1935 com os contornos do português da época. Segundo, eu a descobri bem tarde: em 1956, Manuel Bandeira já dizia que, se fizessem um concurso para a escolha do verso mais bonito do mundo escrito em nossa língua, ele votava no “…Tú pisavas nos astros, distraída…”. Eu acompanho  o voto ilustre e acrescentaria ainda que, cada vez que leio/ouço o bendito verso, me dá aqui um travo aqui na garganta. De beleza mesmo,  de susto. Que beleza demais, sem aviso (“olha, tá vindo um verso daqueles”) dá susto. :)

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão”.


Schopenhauer Bar

May 9th, 2010

Tive um sonho estranho, ontem à noite: eu tinha um bar. Não um boteco pé-sujo, mas um boteco de respeito: um deck com vista para a cidade, umas vinte e poucas mesas de madeira espalhadas por este deck, um pequeno palco onde uma dupla passava o som (“Desenho de Giz”, voz e violão, tocavam e olhavam para o caixa, onde eu estava – meio tentando agradar, meio sacaneando, eu acho). Garçons chegando em velhas Cegês barulhentas, estacionando no fundo do bar,  a briga pelo WC para vestir o uniforme – minha caixa, uma univesitária loira enorme e espirituosa, demora meia hora lá dentro e leva ao desespero a turma da bandeja, que bate à porta, apressa inutilmente a moça. Que sai, deixando um rastro de perfume forte, e respondendo às gracinhas dos garçons (e ganhando a parada, na maioria da vezes). É uma figuraça, a loira.

Logo, a cozinha vai estar atendendo – vejo o trio pelo guichê, preparando o básico para uma noite de sábado. Peço uma meia-porção de calabresa e filé, que divido com a caixa junto à uma cerveja – é quase um ritual, antes de começarem a chegar os clientes. Daqui a umas duas horas, se a noite for boa, ninguém terá tempo para nada, e o bar se transformará num organismo vivo, frenético, um vai-e-vem de pedidos e bandejas realmente assustador.  Confiro os últimos detalhes antes de abrir o portãozinho que dá acesso ao deck do bar: geladeiras organizadas, banheiros estão limpos (que vergonha, quando fui cobrado por uma cliente), os garçons apoiados no balcão esperando – dou um sinal e eles se distribuem pelo bar. Desço a escada e abro o portãozinho, a rua vazia ainda. No letreiro, Schopenhauer, vítima de um trocadilho engraçadinho (‘hora do chopp’??) rí para mim, numa caricatura de traço fino, bebendo seu chopp.

faz algum sentido?

May 5th, 2010

…eu estava num canto da rua, batendo papo, quando ví aquele aceno ao longe, e a reconheci. Acenei de volta, mas não era nada do que eu queria fazer: queria era ir até lá e parar alí um minuto ou dois que fossem, perguntar o que acontecia com ela, que eu sabia diferente. E ajudar no que possível, fazer-lhe alguma diferença. É estranho o mecanismo, esta lógica pela qual se vive e age: uma convenção (social, cultural, é só escolher) ter a força de evitar que se possa oferecer um cuidado, um afeto, um estou-aqui-se-precisar, para alguém de quem não se é tão íntimo ou coisa que o valha, mas que se conhece mais que o suficiente para admirar e querer bem. Oferta que ninguém, nem mesmo ela, entenderia direito, vinda de mim. É isso.

Rápida, mas não rasteira.

March 31st, 2010

Que coisa estranha ter novamente uma mochila, e carregá-la na aula, cheia de livros e caderno, canetas, fotocópias. Me sinto três guris de treze anos.

Na mesma hora e local

March 19th, 2010

Eram quase dez horas da manhã e, da janela do quarto do hotel, eu via uma Cuiabá atípica. O calor abrandara, o horizonte ganhando um fundo de algodão por toda a parte.

Fechei a cortina até deixar apenas uma réstia tímida de sol, suficiente para seguir teu sono. Voltei para baixo do edredon e para perto do teu conforto, tua presença. Me aninhei à tua volta, num abraço preguiçoso, carinho sem maior intenção. Brincava nos teus cabelos, seguia teu rosto. E na tua voz arrastada, de criança contrariada: “que horas são?”.

– Cedo… dorme mais um pouco, dorme…

Escrito em um hotel em Cuiabá, em um dia nublado, às dez horas da manhã, mas durante uma apresentação técnica (que jamais leiam isso). Impressionante o tanto que conseguimos, a partir de uma situação, imaginar outra realidade mais bacaninha…

Teoria da Conspiração – Crie a sua!

March 12th, 2010

A revista Wired dá sua colaboração à uma paranóia mui querida nos EUA, a das teorias conspiratórias. O assunto é tão sério que já rendeu até estudos sociológicos e de mídia que analisam o fenômeno (deve ser um barato fazer uma análise séria, com todo o método e rigor, de algo tão non-sense), livros tentando explicar o mecanismo da criação/divulgação/afirmação destas teorias – basicamente, um misto de sensacionalismo e desconfiança do público nos fatos divulgados, seja pela imprensa ou pelo governo, que se espalha informalmente e atinge a percepção de realidade dos norte-americanos. Resultado (ou trauma?) dos anos de Guerra Fria, explica a fascinação deles com a tal “área 51″, Roswell, Kennedy, o Onze de Setembro, Marilyn, Lady Di, o programa espacial americano, e qualquer coisa que dê errado e envolva mídia, governo e cultura pop. A teoria conspiratória é a “meia-mãe” dos (maledettos) “hoaxes” da internet, pra quem quiser saber…

Numa brincadeira pra lá de divertida, a Wired criou um ‘gerador de teorias da conspiração’ – você vai lá, preenche os campos (sorry, só em inglês…) e cria sua própria teoria da conspiração, com os fatos e argumentos mais saborosos que encontrar! Logo abaixo do tal ‘gerador’, há uma coleção de ‘teorias’ criadas pelos leitores. Vale demais a visita, aqui: http://www.wired.com/magazine/tag/conspiracy-theory/. Faça a sua também!! :)

The Chills / The Great Escape

March 12th, 2010

Taí uma esquisitice que eu gosto… Chills, fazem um som diferente (já era diferente do ‘bolo’ nos idos de 80, e agora soam ainda mais fora do comum), uma linha de baixo consistente e uma guitarra sempre acertada com os vocais (e principalmente, com as ótimas letras) de Martin Phillipps. Conheci os neo-zeolandeses por uma versão feita pelo House of Love, uma das minhas bandas favoritas, do hit Pink Frost. Pink Frost não é exatamente uma música ‘digerível’ – ao menos o tema – mas tem uma linha de baixo realmente empolgante, e uma melodia que ‘gruda’ no ouvido por dias.

A música acima, embora menos conhecida, considero mais representativa dos Chills… letras inclusive. Fala da sensação de que deve haver um mundo enorme, desconhecido, a ser explorado lá fora; a idéia de que, ‘fora daqui’, pessoas e vida serão melhores. Fala de uma vontade de fuga, total, que vivi (e vivo, esporadicamente), e conheço bem. Uma ilusão necessária.

“I sit here and wonder
I wonder what’s out there
I wonder what’s out there?
I hope they can hear me

I’m making plans for the great escape
The great escape from here
I’m taking off for a better place
and better people who care
And no-one can hear me
No one can hear me

There’s light and there’s dark
and sometimes I just can’t tell them apart
I’d rather drink a wishing well
if this is the way things are

And no-one can hear me
No-one can hear me
No-one can see me
and no-one comes near me
No-one”

Jóia rara

March 2nd, 2010

“I was young and carefree
Not a song had found my soul
Lost in Blues, Jazz and Ragtime
No Sound had got to my mood
I was searching for my melody
Love blues that gets me wooed

All along, sad clown with his circus closed down
Lost on my merry-go-around
Came a melody in my heart so yearning
Taught me to hear music out of love
From the soul, for this life
We all live infinite
With a lover and beloved

As one Ellington sound of love”

Charles Mingus, ‘Duke Ellington’s Sound of Love’  – momento iluminado…  :)

recomeço

February 28th, 2010

… estudar à noite novamente, em uma turma que ainda não conheço, voltar ao trabalho (com a parte boa, que são os amigos, e a parte chata, de  um trabalho que há tempos já não me satisfaz), voltar à rotina. Boa e má. Nem imagino o que este 2010 reserva, o que ele traz. Se eu pudesse, talvez escolhesse outra; mas a escolha que tenho no momento é esta: tocar adiante. Difícil acomodar a alma em tão pouco espaço, mas tento.

Verde, verde até o horizonte. De trem.

February 10th, 2010

Em algum ponto da linha Curitiba / Paranaguá, fevereiro de 2010.

É a vista da janela do trem que faz a linha Curitiba / Paranaguá, atravessando um bom trecho de mata intocada. A história desta ferrovia é impressionante – construída entre 1880 e 1885, tem 110 km, grande parte em áreas de difícil (quase impossível) acesso por terra, vales, despenhadeiros. Carregando mate e suprimentos entre as duas cidades,  alavancou o crescimento do Paraná e a integração com o litoral.

Foram necessários 9.000 homens para construí-la, desafio que engenheiros europeus recusaram-se a encarar (e os brasileiros aceitaram). Metade destes trabalhadores jamais retornaria para casa (imaginem como eram as condições de trabalho, à época); a ferrovia era (e é) algo assustador e  grandioso, encravada na rocha a centenas e centenas de metros de altura, cortando a mata nativa, atravessando rochas, esgueirando-se por paredões, equilibrando-se em pontes altíssimas acima da mata.

A viagem praticamente inteira é banhada de verde, numa proporção que já nos esquecemos como é; o ar muda, o ruído da mata se mistura ao do trem, e, a 30 quilômetros por hora, não se quer perder um detalhe só do percurso.

uma das muitas pontes da Ferrovia Curitiba-Paranaguá

uma das muitas pontes da Ferrovia Curitiba-Paranaguá

Nascente

January 23rd, 2010

Aí surgiu, sem aviso, você. Eu nem percebi nada além de uma menina bonita e ainda um pouco deslocada no meio da algazarra. Me lembro: não brinquei contigo, não puxei conversa, não tentei a sorte. Demorou acho que um mês ou mais, até que tive de ir falar com a menina com cara de brava pra pedir alguma coisa. Do que eu ia pedir, virou uma conversa de outro assunto, e outras, que se tornaram várias e variadas, diárias, muitas.

Fiz uma viagem de dentro pra fora, das tuas idéias até a idéia tua. Eu precisei conhecer um lado menos óbvio, tua  vida e tua história,  estrela e coração – pra que pudesse ver você além da mulher simplesmente bonita que estava alí. Em silêncio, me orgulhei da descoberta. Ouro. Quase Neil Young, ‘I’ve been a miner for a heart of gold‘.

“Closer – perto demais” – antes tarde…

December 20th, 2009
Natalie Portman, a Alice de Closer

Natalie Portman, a Alice de Closer

Assisti, com alguns anos de atraso, Closer – perto demais. O motivo do atraso é risível: preconceito. Jamais achei que um filme com a Julia Roberts pudesse ser sério ou, pior ainda, ela desse conta de um papel mais denso. Caí do cavalo, feio… a água com açúcar passou longe de Closer. O filme é rico, tanto nas atuações como, especialmente, nos diálogos (brilhantes). É um filme enxuto: quatro personagens, alguns cenários (simples), muito diálogo. Daria fácil uma peça de teatro, e não procurei saber, mas não duvido que seja esta a origem dele.

A história começa de forma relativamente simples: uma garota meio maluquinha, ex-stripper nos EUA e recém-chegada a Londres (Alice, interpretada por Natalie Portman) é atropelada por um motorista de táxi, e socorrida pelo jornalista e escritor em início de carreira Daniel (Jude Law); eles iniciam um romance, e Daniel aproveita a história de Alice como argumento para seu primeiro livro. Prestes a ser publicado, Daniel conhece a fotógrafa  Anna (Julia Roberts), recém-divorciada, durante uma sessão de fotos. Anna é uma mulher madura, de visão prática e sem muitas ilusões; ela a princípio evita envolver-se com Daniel, contrariando a atração que surge entre ambos. Daniel, rejeitado por Anna, mantém o relacionamento (já algo desgastado) com Alice, mas não consegue deixar de procurar/observar Anna. Ela torna-se uma espécie de obssessão para ele, que a espreita pela janela, na rua, segue seus passos; Anna encarna neste momento a aventura da conquista. Neste misto de desejo e impossibilidade, ele resolve brincar com o destino, fazendo-se passar por ela em um chat erótico, e promovendo o encontro dela com o médico Ben (Clive Owen). Neste encontro, ao invés de pregar uma peça em Anna, como era sua intenção, ele a apresenta ao seu futuro marido. O tiro sai pela culatra e Ben, sujeito sem muito refinamento, mas prático e objetivo como Anna, acaba por levá-la ao altar. Ele a ama, mas de uma forma previsível, comum, quase contratual. Ambos obtém a estabilidade almejada, mas não a realização do ideal romântico: sua relação é mais de posse mútua, compromisso, do que a experiência de uma verdadeira aventura amorosa. Anna ressente-se disso e, com o tempo, cede à esta ilusão, agora representada por Daniel – o amante, fogoso, interessado, apaixonado, diferente. Ben, o marido, contenta-se com uma escapada ocasional (e confessada), de forma que, em sua visão, não há nada errado em seu casamento.

Quando a situação foge ao controle dos amantes, eles resolvem abrir mão de seus relacionamentos atuais, e viver este ‘novo’ amor. Anna tenta separar-se de Ben (que entra em uma espécie de colapso emocional, ao perder o ‘chão’ do casamento) e Daniel abre o jogo com Alice, talvez o personagem mais interessante (e mais sofrido, também) dos quatro. Alice vai-se da vida de Daniel (embora ele tente mantê-la, retê-la) e volta à rotina de stripper em um clube, enquanto o (novo) casal apaixonado tenta conseguir os papéis da separação dela. Daniel, porém, não consegue confiar totalmente em ninguém (sua busca incessante pela verdade dos outros é proporcional à velocidade com que oculta a sua) e, em uma recaída de Anna (que transa com o ex-marido em troca da assinatura deste nos papéis do divórcio), perguntas demais exigindo respostas honestas demais irão destruir a ilusão que Anna ainda possui do seu ex-amante e pretendente a marido. Daniel busca na verdade alheia o escudo para sua mentira, sua incapacidade de se envolver/entregar por inteiro, sua necessidade de manipular emocionalmente as pessoas. Neste meio tempo, Ben encontra Alice, casualmente, no trabalho dela. Esta é uma das cenas mais brutais (e paradoxalmente, também mais bonitas) do filme. O genial diálogo dos dois, na cabine de strip-tease, cresce de forma ferina, em que o controle do jogo se alterna, pergunta a pergunta, resposta a resposta. Ele quer a todo custo a verdade (novamente) dela, mas não percebe quando a obtém. Quando seus recursos (verbais, financeiros, emocionais) se esgotam, depois de ter sido ríspido, arrogante, Ben finalmente entende sua situação. É a hora em que, orgulho deixado de lado e lágrimas chegando, vem a declaração mais surpreendente possível. “Eu te amo. Eu amo em você tudo aquilo que dói.” – ou seja, a fragilidade dela (estrangeira, stripper, jovem, abandonada, solitária – toda sua situação). É, de alguma forma, um momento em que Ben permite-se admitir a própria fragilidade também, o fundo-do-poço em que se encontra pela perda do amor de Anna.

O filme dá um pequeno salto temporal e vemos Daniel, começando a entender que o amor (e confiança) de Anna está escorregando por entre seus dedos. Desesperado, parte para o consultório de Ben, pedindo que ele a abandone, acusando-o de não a perdoar (o que ele refuta) e de amá-la sem entusiasmo, ‘como um cão a seu dono’. Ben, confortável no controle da situação (e novamente com Anna, à sua maneira), pergunta a Daniel se ele sabe o que significa ‘compromisso’; e diz que ela já fez a sua escolha (o que é verdadeiro; uma escolha pela estabilidade). Ben diz a Daniel que encontrou Alice e escreve em um receituário o endereço do inferninho onde ela trabalha (adicionando, antes que Daniel pergunte: “Não, eu não transei com ela”). Quando Daniel dirige-se à porta, chorando e agradecendo a informação, Ben o interrompe: “Dan… não consigo ser assim tão nobre contigo. Na verdade, transei com Alice. Sinto muito”. É a declaração que selará o destino de Daniel, cedo ou tarde. Sabemos (mesmo sem ter visto o final do filme) que, em algum momento, a compulsão de Daniel em ‘saber tudo’, o trairá. Ben segue sua vida, após obter (de modo não muito ético, mas a seu ver válido) Anna como sua esposa novamente, sem se preocupar muito com a satisfação dela. Para ele, Anna é muito importante em sua vida, mas como uma base emocional, não como uma companheira. Ele a vê como uma depressiva que precisa constantemente de situações assim (o relacionamento onde estão) para afirmar sua visão de mundo, e não se importa com isso, desde que a tenha por perto. Prático, objetivo, egoísta e, assim como Daniel, manipulativo.

Daniel e Alice retornam às boas, e, em novo salto temporal, acompanhamos o dia anterior ao embarque dos dois, em férias, aos EUA. Entre recordações de como se conheceram, bons momentos, Daniel (previsivelmente) esbarra neste assunto, a noite em que Ben encontra Alice no trabalho. E a pergunta vem, para desconforto dela; e insistente, querendo a tal verdade absoluta, os fatos, o ocorrido… até que vemos o semblante de Alice mudar. É como se a câmera capturasse o exato momento em que ela se dá conta de quem Daniel é, de sua fraqueza, sua torpeza. É tão claro, que podemos ler isso nos olhos dela… Daniel sai para comprar cigarros e retorna, no meio do caminho, pedindo desculpas… finalmente, entende a frase de Ben (“não consigo ser assim tão nobre contigo”). Já não há o que remendar, e após ouvir a verdade, em uma discussão que termina em briga, vemos Alice indo embora sozinha para os EUA. A câmera retorna para a cama de Ben e Anna, ele fechando o livro que está lendo, ela olhando perdida para o lado – nenhuma emoção, nenhum envolvimento, apenas a convivência (e conveniência). Anna fez sua escolha pela segurança, pelo conhecido, pelo previsível. Incrível como Julia consegue transmitir isso, este sentimento (a vida prosseguirá sempre assim, sem sustos e sem surpresas) com um olhar. Curioso é que, de todos os personagens, o mais humano seja justamente o de Alice, que se entrega verdadeiramente, sem ressalvas; é a única que não faz ‘jogo’ algum, sendo honesta consigo (ao contrário de Anna, que escolhe um caminho mais fácil, embora contrário ao que deseja) e com os outros. O desembarque de Alice (na verdade, Jane Jones, como descobrimos neste instante) no saguão do aeroporto americano parece fechar este capítulo em sua vida.

Juro que fiquei algumas horas perdido, entendendo o filme. Revi. E dias depois, revi novamente. E outro dia, também. Pensem nesta história contada com os diálogos mais precisos, cortantes, afiados que se possa construir. Pense em um filme com quatro personagens apenas, todos entregando uma performance inimaginável… é este filme. Grande, grande filme. :)