Chuva, cheiro de terra molhada, grama – Eu era vento e te acompanhava pelo hall, brincava em teu vestido, embaraçava teus cabelos. Nem percebeste.
Algum tempo atrás.
October 18th, 2011Brasilia, curiosidades satisfeitas & algumas histórias também.
October 13th, 2011Brasilia sempre foi uma cidade intrigante, para mim. A história da capital plantada em meio ao cerrado no planalto central, construída em plena adolescência pátria, me deixava perplexo. Motivos (do local, da forma, políticos, históricos), as lendas que rondam a construção, histórias de minha família ligadas ao lugar (meu avô morou lá em seus últimos anos de vida e trabalho), tudo contribuía para a curiosidade. Curiosidade antiga que só foi saciada (e precariamente, mal tive tempo de experimentar de verdade a cidade) há dois meses. Enviado para um treinamento, acabei justamente em Brasilia, para três dias realmente corridos junto a outros colegas.
Desta vez, resolvi dividir as despesas do hotel com um amigo, e encontrei nele alguém que também não conhecia Brasilia, e também não se conformava em ir até lá (ainda que a trabalho) e voltar sem conhecê-la. Dei sorte: arriscamos um bocado (saímos à noite sem conhecer NADA da cidade, à pé), rodamos pelo setor hoteleiro, Torre de TV, praças, eixo, shoppings próximos (dois), fizemos o city tour no último horário do ônibus (e debaixo de um frio de quinze graus, expostos no andar superior do mesmo), jantamos em um shopping bacaninha (Brasilia Shopping). Arrisco dizer que, se eu tivesse ido sozinho, provavelmente não teria me animado a sair tanto em tão pouco tempo.
E havia o hotel. Bom, pra começar, era antigo (o segundo hotel de Brasilia)… talvez, se eu não estivesse me divertindo, teria implicado com isso – o hotel era realmente antigo, construído em 1965 e pelo jeito, não reformado e com aqueles sinais de decadência meio tristes na manutenção. Mas eu gostei dele assim mesmo e, para três dias, estava OK. Corredores longos, arquitetura típica dos anos 60 no hall, quartos grandes, louças de tamanho descomunal no banheiro, coisas que não se vê mais (porque parece que tudo o que foi construído nesta época hoje está transfigurado em algo atual). O hotel era uma ‘máquina do tempo’ em que se hospeda no passado, um passado bem gasto, é verdade, mas ainda assim uma experiência diferente e rica pra quem for atento e souber observar. Lí (pela net, dias depois) que foi vendido a um grande grupo hoteleiro e será demolido para construção de uma torre de 25 andares, outro hotel – certamente, nenhuma máquina do tempo.
Fiquei nele por duas noites e, asseguro, era BEM assombrado. Papo sério. Na primeira noite, levantei por três vezes para ver quem batia à porta (coisa de maluco, ok – não façam isso em outro hotel!). Mas fui, e na terceira, fiquei de botuca, esperando o engraçadinho pra pegá-lo no pulo, mexendo na maçaneta. Abri a porta no ato e…. senhores e senhoras, não havia NINGUÉM no corredor, nem luz, nem elevador, nada. Olhei pro colega, dormia feito criança na outra cama, olhei de novo pra porta, abri, sem viva alma. Ou melhor, quando muito, só alma.
Fiquei quieto e não comentei o ocorrido com o amigo neste dia. Mas eu ouvi e ví a maçaneta se mexendo por três vezes… e em nenhuma delas havia gente de carne e osso no corredor. Ok, achei ‘normal’ pela idade do Hotel (e, convenhamos, um hotel destes vê e passa por muita coisa ao longo de tanto tempo), me convenci de que era uma assombração boa (já que não senti medo algum, só espanto) e dormi tranquilo. No dia seguinte, em que fizemos o tal city-tour, andamos bastante à pé, chegamos bem pra lá de cansados. Assistimos TV e lá pelas tantas, percebi que assistia sozinho… desliguei pelo controle remoto, deixei-o perto da cabeceira, e caí no sono. Sono leve, bom. Aí acordo na manhã seguinte com a TV ligada, baixinho, num canal de notícias… meu amigo dormindo o oitavo sono, virado para o outro lado. E o bendito do controle no exato lugar onde o deixei… sem explicação. Olho o timer da TV… Desligado. Meu amigo acorda sonolento, pergunto para ele… “não, acordei agora. Vc. não deixou ela ligada de ontem pra hoje??”. Nossa assombração gostava, também, de televisão! Além de brincalhão, teve a gentileza de me acordar na hora exata para não perder o último dia de treinamento!
Sobre a cidade, posso dizer que resolvi parte da curiosidade e curti o quanto pude. Comi muito bem (especialmente no jantar – um grelhado sensacional no primeiro dia, e um banquete ogro no Outback do Park shopping, uma hora antes do vôo de volta); conheci os principais espaços, construções e monumentos (mas à noite, correndo), tive o prazer de andar a pé (odeio quando não posso fazer isso, perambular um pouco pelas redondezas do hotel) bastante (mais do que meus joelhos permitiriam normalmente), conversei com os locais (do comércio ao taxista, colegas de curso, etc), pude ver um pouco do mosaico humano de sotaques, visões de mundo dalí. Brasilia me pareceu marcada pelas suas divisões, pela história quase toda recente. É uma experiência humana única, e quem não acredita que a cidade e sua arquitetura moldam o homem que alí habita, vá lá e entenda a extensão desta influência. Gosto especialmente do assunto cidades e fiquei o tempo inteiro ligado, captando isso. Aproveitei e fui pesquisar sobre a construção, a escolha do local, as decisões técnicas e políticas, e achei uma série de reportagens do jornal Correio Brasiliense extremamente interessante aqui.
E, por fim, algo importante para mim: finalmente conheci (ao menos de passagem) os lugares onde meu avô trabalhou e viveu. Era estranho pensar em estar lá trinta e cinco anos depois do que ele planejara – meu avô estava mobiliando o apartamento cedido a ele para que nossas férias de 1976 fossem justamente lá em Brasilia; mas um ano antes disso, um despenhadeiro na estrada o levou de nós. Era ele o brincalhão do hotel? Não creio muito nisso. Mas sei que ele esteve comigo boa parte do tempo, curtindo as férias rápidas junto ao seu primeiro neto, de um jeito parecido (andando muito, como ele gostava e eu gosto, comendo bem e à vontade, e me apresentando a cidade). De algum jeito difícil de explicar, sei que tivemos um pouco daquelas férias que não aconteceram, muitas décadas depois.
O filme, o cantor, a música (e a vontade de ser um piano)
August 27th, 2011
O filme: A última sessão de cinema (The Last Picture Show), grande estréia do diretor Peter Bogdanovich no cinema. Um filme produzido em um grande estúdio americano, mas completamente fora dos padrões do ‘filmão’: falava sim do ‘american way of life’, mas visto do lado B – o dos moradores de uma cidadezinha perdida no interior do Texas, plena década de 50: guerra do outro lado do mundo (Coréia), declínio do cinema e ascensão da televisão como principal entretenimento (e formação/reprodução de padrões), o milagre americano acontecendo lá fora e em Anarene, apenas a poeira com que um vento onipresente insiste em cobrir a vida de seus habitantes.

Mais: o filme é, apropriadamente, filmado em preto e branco. Mas não um preto-e-branco qualquer, um preto-e-branco evocativo, granulado, afiado; em 1971, pouca gente arriscaria fugir do conforto das cores. Peter Bogdanovich era um destes, e o diretor de fotografia Robert Surtees realizou uma obra-prima, ambientando um passado (na época) não tão distante com a dose certa de luz que a memória impõe.
Baseado em um livro de Larry McMurtry (Streets of Laredo), o filme é a estréia na tela grande de um trio de atores na faixa dos seus 20 anos: Cybill Shepherd, belíssima, como a garota mais rica, bonita e fútil da cidade; Jeff Bridges, seu namorado pobre e boa-pinta, sempre em vias de ser trocado/traído/usado, e Thimoty Bottoms, seu amigo inseparável, o garoto meio perdido entre os sonhos e a realidade.
Juntam-se a eles Cloris Loachman e Ellen Burstyn, respectivamente a dona de casa que se envolve com Bottoms, e a mãe de Cybill (ambas interpretações fabulosas); e Ben Johnson, ator veterano de westerns, que faz o grande Sam, o Leão: espécie de ‘pai’ moral da cidade, dono do cineminha local (prestes a fechar, daí o título do filme), da sinuca e do boteco, ele faz exatamente este papel para os dois garotos. É em torno da figura forte de Sam que ambos balizam valores, comportamento, caráter.
O filme é um pedaço da vida dos dois, suas perspectivas, escolhas, aprendizados. Coming of age na america caipira dos anos dourados – em Anarene, no máximo um brilho barato.


Até aqui eu falei do filme e ele vale MUITO a pena ser visto. Quem viu, normalmente o descreve como um filme agridoce – você termina de ver e não sabe se está realmente mais triste ou mais feliz; mas dificilmente sairá do mesmo jeito, se prestar atenção nele. Mas um dos pontos fortes do filme é a trilha sonora, recheada de canções da época, especialmente de Hank Williams - patrono do country americano, e primeira grande estrela do country no radio. Ascendeu, ardeu ao máximo e apagou em tempo recorde.

O cantor: Hank Williams, nasceu em 1923 e aprendeu a tocar com um músico de rua negro e blueseiro, trocando as lições por um prato de comida. Hank foi o primeiro grande fenômeno do rádio Country, e deixou um legado de canções que foram (e são) regravadas de tempos em tempos por artistas dos mais variados estilos – rock, blues, country, pop. Hank não sabia ler partituras, mas compunha e escrevia canções tão diretas e imediatas que mexiam com o sentimento de uma America saída da guerra, apegada a um passado rural recente, irremediavelmente caipira e saudosa de uma inocência também ha pouco perdida.
Você vê a letra de uma música e estão lá homens e mulheres se comunicando e se relacionando de um jeito totalmente diferente da sofisticação esnobe das grandes metrópoles que o ‘cinemão’ prescrevia: aqui, amores e desejos & promessas e seus resultados são crús, básicos, vitais. A vida é dura e não há muito tempo para ter dúvidas ou dissimular, se jogar à estratégias.
Assim são suas músicas, de uma simplicidade tocante; e delas, calhou de eu conhecer primeiro Cold, Cold Heart, que ‘abre’ o filme acima. Em tempo: Hank Williams viveu como cantou: emplacou inúmeras músicas nos primeiros lugares do rádio, foi sua primeira celebridade country de alcance nacional, brilhou como a estrela que era e se consumiu em álcool (muito), confusões e morfina (Hank convivia com dores incuráveis), apagando-se aos 29 anos. Virou lenda.
A música: Cold, Cold Heart é o lamento de um pretendente rejeitado, alguém que está ‘pagando por erros que ele não cometeu’. Alguém no passado desta mulher desejada, um outro amante, a machucou o suficiente para que ela rejeitasse qualquer envolvimento a partir de então. Ele tenta de toda forma derreter este coração frio e assustado – ‘why can’t i free your doubtful mind and melt your cold, cold heart?‘. Qualquer um que tenha vivido a situação (e insistido, e pedido, e argumentado, e tentado provar que sim, se é diferente) vai se identificar com ele – sua angústia em provar que merece uma chance, e que ela também.
É algo que poderia virar uma música muito ruim nas mãos erradas, mas Hank tira dele uma SENHORA música – eu mesmo que não curto quase nada ligado ao country gosto – e lembro o quanto estive tomado por este sentimento – quem nunca investiu em um amor complicado, que atire a primeira pedra.
A Norah, Norah Jones. Esse docinho de coco que canta, instiga, relaxa e ainda me faz ter vontade de ser um piano, sai com esta versão belíssima de Cold, Cold Heart. Eu já gostava da moça, do repertório e da tal ‘presença’ dela; já era ligeiramente fã antes. Algum tempo atrás, tou procurando por Cold, Cold Heart no YouTube quando esbarro neste clipe: seria pedir demais querer indiferença deste meu coração de gelo, não? ;)
Cinema & hábito
July 5th, 2011Ontem, depois de um comentário postado no twitter, me dei conta de que tem pelo menos dois meses que não assisto a filme algum. Algum tempo atrás isso seria impensável, e comecei a decifrar os motivos deste meu desinteresse pelo cinema… para quem já se embrenhou em um curso de Radio e TV sonhando com video (linguagem, técnica, etc), era um caso grave. Dois meses sem ter uma boa história contada em audiovisual, seja ele qual for, cinema, dvd, on-line.
Quando encarava o cinema como objetivo distante (o último depois do vídeo, que era o objetivo imediato), assistia a uma média de dez ou doze filmes por mês. As meninas da video-locadora já me conheciam pelo nome, e nunca precisei de carteirinha; nestes anos, formei uma boa ‘biblioteca mental’ de imagens, referencias, roteiros. Como não conseguia de imediato me desligar do filme em sí e analisá-lo acima da diversão, via várias vezes cada título – a primeira apreciando o todo, e algumas outras estudando cenas, diálogos, tomadas, edição, montagem, áudio etc. Felizmente passou esta fase ‘de estudos’ e hoje consigo assistir a um filme sem tentar desmontá-lo logo de cara… vez ou outra ainda começo a fazer isso, mas paro a tempo.
Lembro de ter procurado títulos antigos (não só clássicos, mas aqueles ‘obscuros’ também), e de ter revisto com outro olhar filmes que já achava impressionantes antes de começar a estudar; vários contemporâneos (e tive uma baita sorte, de estudar isto numa época de produção mundial riquíssima), alguns bem comerciais (necessário também), experimentais (e o resultado nem sempre compensava o esforço). Mostras de cinema e vídeo, eventos deste tipo, eu batia cartão – religiosamente, ano a ano. De algum jeito, adiantei minha ‘cota’ de filmes em uma década, de forma que de uns anos pra cá – e especialmente com o fim das locadoras de DVD – desacelerei até o ritmo (ou a ausência dele) atual. É curioso, acabo vendo os filmes (e agora, ver mesmo – não mais ‘estudar o filme’!) quando já se tornaram, na mídia, passado. Aqui mesmo no Caminante.eti.br, os filmes sobre os quais escrevi tem um bom par de anos no mínimo… uma espécie de ‘processo de decantação’ – passado o rebuliço, vou lá dedicar um tempo à eles e, se mexerem comigo o suficiente, escrevo. Mas algo me diz que ando deixando passar um tanto de boas histórias… ;)
Nu, Pogodi!
June 22nd, 2011
Um lobo malandro, meio pirado, com dons de artista e pra lá de atrapalhado, e um coelhinho um tanto ingênuo e com uma sorte dos infernos (dezessete anos escapando do lobo!), em situações absurdas em cenários comuns do dia-a-dia (museu, estrada, restaurante, navio): a receita do desenho animado mais popular na União Soviética entre 1969 e 1986 – Nu Pogodi!. Hoje, tem aquela cara datada dos produtos soviéticos de época que traz um charme a mais pro desenho – junto a um humor extremamente simples, bom/mau, sorte/azar e situações cômicas que dispensam tradução. Acho (puro achismo meu) que tem tudo para virar ‘cult’ , e me admira que ainda não tenha acontecido.
Não é nada que o ocidente não houvesse produzido décadas antes, e talvez aí esteja o outro motivo do charme do desenho. Mais: esta geração que assistiu Nu Pogodi! é a mesma que assistiu à transformação da URSS, à queda do muro de Berlim, ao renascimento das repúblicas independentes. Assim, acho que para eles fica como uma lembrança de outros tempos (piores? melhores? diferentes?) , recuerdos de uma infância em outro contexto.
Quem não viveu isso (ou viveu aqui, ao longe, de notícias e pela tv), e descobriu o desenho há pouco tempo, mesmo assim pode se divertir com o desenho (dispensa o curso intensivo de russo, acredite… :) a música e as expressões dos personagens suprem as pouquíssimas falas) e ter um gostinho deste humor diferente: há um monte de episódios disponíveis na net, especialmente no YouTube, e rodando o mundo em torrents, para quem quiser ver off-line.
universo paralelo (1)
April 5th, 20111) Universo paralelo: são 65 (sessenta e cinco) quilômetros daqui, onde estamos, até a cidade de Chapada dos Guimarães. Quase deserta, nesta terça-feira trivial, em tudo indistinta. Te busco. Saio daqui pensando na tua risada ecoando no carro, nas desculpas que vc. irá inventar para sumir por uma tarde, nas tuas provocações e brincadeiras a estrada inteira. Sei que vai me pedir para ir mais devagar em um trecho, mais bonito, e vai me pedir de um jeito que só vai me deixar esta alternativa. E uma vez lá, estes sessenta e cinco quilômetros se parecerão com um mundo, a distância entre duas realidades: aquela que deixamos para trás e a que temos a sorte imensa de experimentar, sem pressa, sem culpa, sem satisfação a mais ninguém.
2) A outra escolha: indiferente à chuva que insiste em cair há semanas, a vida segue um curso previsível. A chuva traz frio, mas a insistência geral é no ar condicionado, nas centenas de salas quase tão indistintas como a terça-feira. Aqui no meu canto, a idéia da existência de um universo paralelo é o que me intriga e move. Nele, este Ricardo saiu no início da tarde, avisando que não retornaria; na chuva fina, dirigiu-se à um prédio na mesma região onde, em uma sala igualmente fria demais, a garota de óculos que ele conhecera alguns anos atrás aguardava uma chamada em seu celular, os olhos indo deste ao monitor, aos colegas e novamente ao celular. Que enfim tocou, e moveu garota, óculos, celular, olhares e comentários mudos em direção à porta, depois ao corredor largo, aos jardins e finalmente, ao carro estacionado logo em frente. Dalí, seriam sessenta e cinco quilômetros até a cidadezinha e ao calor, apesar de todo o frio.
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obs: É um tema recorrente, eu sei. Creio que publiquei algo próximo em 2009… mas algumas vontades permanecem e, ocasionalmente, são estas vontades que nos salvam, suportam, inspiram. É isso.
Arrependimentos Musicais
March 27th, 2011Fui adolescente lá pela segunda metade dos anos 80, e duas bandas que demorei para ouvir (ou melhor, para respeitar) foram, justamente, duas queridinhas da minha geração: o U2 e, aqui do Brasil, a Legião Urbana. E nem era algo relacionado especificamente à música, mas sim com os fãs; ambas as bandas possuíam hordas de seguidores fanáticos que, como todos os extremistas apaixonados, eram um porre de se aturar. Religião Pop, parei aqui. Fechei meus ouvidos para qualquer coisa que viesse de ambas, por um longo tempo; e lembro exatamente de onde mudei de idéia e comecei a ouvir e descobrir que, longe das canções óbvias de trabalho, aquelas que tocavam nas rádios ad nauseum, existiam sim, boas letras e melodias interessantíssimas.
Da Legião meu afastamento durou até 1995, quando acompanhei uma amiga porra-louca num boteco pra lá de ‘alternativo’ (até demais) e fiquei encucado, que p… de banda é esta que está tocando no som, parece Joy Division, industrial, seco, urgente… as linhas de baixo e guitarra iguais ao Joy mas… está cantando em português… caramba, que legal – letra inclusive!! Que massa!!! Sim, era legal, e eram os primeiros discos da Legião… quem diria. Queimei minha língua.
Já do U2, eu mantinha mais distância ainda, até que, do nada, em 2008 apareceu para mim uma gravação da Cassandra Wilson de uma música realmente linda. Gostei da melodia, já gostava da voz e do estilo dela, prestei mais atenção à letra: lá pelo meio, “Love is clockworks and cold steel / Fingers too numb to feel.…” – peraí.. bom!!! E mais adiante, “Love is blindness, I don’t want to see / Won’t you wrap the night around me?”. Caramba, que letra inspirada… fui pesquisar, esperando algum nome do R&B na composição, deixa eu ver, quem sabe tem mais destas…. Rá! U2. Engolí em seco. Para aprender a não pré-julgar um artista pela exposição/promoção que ele tem – ou ao menos, não pré-julgar toda a produção dele… ;)
processo de reencontro
March 23rd, 2011Tem acontecido assim: um mês antes do retorno das aulas, eu começo a questionar minhas aptidões para a ‘nova carreira’, meu aproveitamento no curso de Direito, o quando/quanto mudarei meus rumos profissionais, etc. “Será que estou no caminho correto? É mesmo isso que quero? E aula, caramba, cobrança (própria inclusive), avaliações, trabalhos… e horários? E a natação, como fica? E depois de formado? E se isso, e aquilo?”. Passada esta fase questionativa, vem o impulso: eu vou . Por dois anos (2008 e 2009) o questionamento (claro, não só ele, mas também ele) me deixou longe da UFMT… em 2010 não, e felizmente, 2011 também não. Em ambos os anos, depois de alguns dias, eu já me questionava novamente: “como havia sobrevivido tanto tempo sem isso” – o “isso” sendo aquela bagunça de faculdade, o conhecimento chegando aos montes, as novas idéias e pessoas por conhecer… :)
Aurora de Paz (trecho)
December 31st, 2010Nossa manhã já vem vindo
Repare que dia lindo
Pra lhe consolar
Prepare o seu coração
Que essa aurora é de paz
E quem já sofreu uma vez
Desta vez não sofre mais…”
Intuição
December 8th, 2010Será que é sorte, a de quem intuiu antes a mulher interessantíssima que surgiria dali, construindo-se aos poucos, na vivência e descoberta do mundo? Se convocado a ser sincero até meu último grau neste assunto, eu teria de admitir que, intuições à parte, há em mim uma pontinha de inveja saudável de algum cidadão futuro, que qualquer hora destas irá descobri-la – bonita, madura, cheia de idéias; e que se tiver algum juízo, vai trazê-la pra sua vida e fazer parte da dela. Eu teria. ;)
porque loucura pouca é bobagem:
November 24th, 2010isto FOI um caminho utilizado para manutenção/inspeção em uma usina hidrelétrica espanhola construída em 1905, há um bom tempo abandonado… alguns malucos descobriram e resolveram usar para outros fins (bem menos utilitários e mais emocionantes). “El Caminito del Rey”, em Málaga, ganhou o nome após a visita do rei Alfonso XIII em 1921 – sim, o rei fez o percurso… mas na época em que ainda havia onde pisar! :) Hoje está interditado, e o governo espanhol tem planos de restaurá-lo para fins turísticos. Queria conhecer, mas depois da restauração… ;)
Para uma senhora, desconhecida, perdida em uma janela.
November 19th, 2010Sei que ela sempre fica sentada lá no fundo da churrascaria, quietinha – uma única vez a ví entrando na cozinha, e logo voltou para a última mesa, perto do escritório. Tem bastante idade, e parece ter sido bonita, em sua época: eu a vejo olhando a rua pela vidraça enorme, e imagino o que ela pensa, do que ela se lembra; certamente não é daquela rua, mas alguma rua, outra rua, milhares de quilômetros daqui, quem sabe?. Mesmo quando a minha mesa barulhenta, cheia de comemorações & palmas & risadas preenche o espaço do salão, ela permanece imutável: um meio-sorriso, ou só o olhar perdido para a janela imensa, esperando o tempo passar, esperando a volta para casa.
Dá vontade de pedir aos meus: não a perturbem muito, não a aborreçam muito: deixem-na sonhar um pouco por aquela janela. E aos dela: alguém que a entenda, e lhe seja familiar e importante, vá até lá, e aproveite a oportunidade para lhe fazer um agrado, para falar com ela, lhe dar um abraço. Cinco minutinhos que sejam, mas vá. Alguém que a traga para o presente, de tempos em tempos, para que ela não se perca. É isso.
Definição
November 10th, 2010Viver é equilibrar urgências, possibilidades, expectativas:
a infinita corda-bamba ligando as impossibilidades e as realizações, acima do vale do tempo.
tudo quanto eu posso querer dizer
November 9th, 2010Eu hoje acordei pensando em algumas pessoas – gente que esbarrou em minha vida em algum ponto dela, que apareceu e foi embora, que não foi ou desviou. Acho que acordei pensando nelas para evitar pensar em uma só, um caminho que só tem duas saídas e nenhuma volta. Ser só (não estar só, que estar é algo temporário, é o dos outros e não meu caso) parece quase uma ruindade (aí sim, pra sí e para os outros); fiquei matutando a idéia e me apareceram aqui a srta L., rocker, um bebezinho risonho em um vestido preto curto em uma noite de festa, pura nonchalance – aquela postura desligada diante da vida que me atraía e atrai; na srta. F. nos seus dezessete anos, toda urgência & sei que aqui, imediatamente, quis aquele brilho dos olhos dela como nunca tinha imaginado antes, minha estréia em desespero por causa de mulher. Srta. M, que tinha as tais covinhas no rosto delicado, para quem, na eterna ausência de cadeiras na sala (empresa de pobre é isso), eu me abaixava para olhá-la mais de perto, e era quando eu falava como quem fala à uma criança, de um jeito doce. Srta M. jamais me entendeu; mas eu a pressentia em todo e qualquer lugar, algo assombroso.
Pensei também na Sra R., que me deixava exausto com a montanha-russa emocional que era sua vida, e eu quis tanto – mas tanto – que até a amizade resistiu ao não. Quando o não pode virar sim, ou quis virar sim, eu já não podia, honestamente, vivê-lo. Cada um a seu momento, saímos de cena. Lembrei de ter passado um tempo imenso, desacreditado. Lembrei da menina bonita que esperou o estágio acabar para me ligar, sem jeito mas cheia de coragem, me chamando para sair; de outra colega que teve comigo uma paciência (e uma decência, em não tripudiar) além da conta, até que só bem recentemente eu pudesse olhá-la com o mesmo (ou ainda maior) carinho, mas sem automaticamente imaginar algum futuro juntos. E quanto mais eu evitava a idéia, pensando nelas todas, em meus tropeços e acertos, mais eu me via hoje – e ontem, e nos últimos dias, a meio passo de recomeçar a busca, tateando o caminho. Até aqui, é tudo quanto eu posso querer dizer.
não-ficção
November 5th, 2010…mas havia algo com que ele não contava: outra vez aquela voz insistente, que vinha de dentro e zombava das suas dúvidas (algumas realmente risíveis) e avanços incertos, mas lhe era franca: ‘Ricardo, a felicidade não espera – é escolha, arriscar vivê-la ou suportar sua ausência até alguma próxima volta da vida’. Havia o quê, anos? desde que a tal voz se calara; neste meio tempo, tinha se virado como podia, sem esta ajuda. Até a noite de ontem, para ser mais exato: não conseguira ser indiferente a ela. Outra vez neste encanto.
Parte dele ainda colocava as coisas em perspectiva: datas, frases, instantâneos, aquele determinado olhar dela; a outra parte, que ele já sabia perdida nesta idéia, o inquietava. Coração não é bicho simplório, tinha aprendido: e o dele além disso era também fácil em misturar afetos, quereres, carinhos, admiração. Nunca fora simples como parece ser para os outros, como estender a mão. A idéia, porém, de algo assim, que nascesse e terminasse nele e em silêncio, era ainda pior que qualquer confusão em que o coração lhe colocasse.
Alegria, Alegria
November 3rd, 2010Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou…
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não…
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Alegria, Alegria (Caetano Veloso) tem um gosto todo especial, para mim (seja pela letra mesmo, seja pelo contexto em que eu ouvi nas primeiras vezes). E é paixão antiga, do Ricardinho de 1980 e qualquer coisa… tem jeito e cara de verão, leve, sol na janela no final da tarde, risada, picolé de limão e quase-férias. Fica assim uma felicidade boba, declaradamente descompromissada, que combina com o título… :)
Constatação:
October 30th, 2010….entre corações vazios, meio-vazios, ocupados, o meu segue pulsando. Mas não impunemente, menos ainda sem marcas.
Mini-revelação
October 9th, 2010…outro dia eu me descobri, num instantezinho assim de nada, na mesma sensação boa de estar no mundo, da existência boa por sí só, que eu tinha aos quinze anos. Foi coisa rápida, de uns cinco ou dez segundos, mas suficientes para respirar algo de vida que, definitivamente, faz falta. Pensei nas pessoas que eu conheci que mantinham este, digamos, entusiasmo adolescente diante do mundo, diante das possibilidades, pessoas e situações a experimentar. Eu falaria destes que têm um tipo de fome disso tudo, mas estaria dizendo pequeno como antes desta mini-revelação. Depois dela, seria melhor dizer destas pessoas que enchem o pulmão de mundo, de tudo isso, e esta respiração despercebida (porque é ato involuntário) atrai ao seu redor outra energia; esta coragem diferente.
Logorama
October 9th, 2010
Logorama from Marc Altshuler – Human Music on Vimeo.
A melhor animação que vejo em anos… material para refletir, especialmente para quem anda farto desta corrida para um mundo cada vez mais infernalmente igual (e mais pobre, também, quando o trator corporativo põe abaixo a variedade). Faltam-me palavras; resta assistir à esta jóiazinha descolada no Vimeo, enquanto não tirarem do ar!! :)
Valsa Brasileira
August 9th, 2010“Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu
Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer…”
Do Chico Buarque e do Edu Lobo, bonita que só! Já me tirou o sono, já me explicou um mundo, já coloriu outro. Daí a importância.